Acordar com glicose alta pela manhã pode causar dúvida em quem convive com diabetes. Muitas vezes, a pessoa foi dormir com glicemia dentro da meta e acorda com valores mais elevados, mesmo após várias horas de jejum.
Esse aumento pode estar ligado ao chamado fenômeno do alvorecer, mecanismo do organismo que ocorre no final da madrugada. No entanto, outros fatores também podem explicar a elevação da glicose ao acordar.
Segundo o endocrinologista Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), identificar a causa da glicose alta é fundamental antes de qualquer ajuste no tratamento.
“Nem toda elevação da glicose pela manhã ocorre pelo mesmo motivo. Por isso, é importante avaliar o contexto antes de mudar a dose de insulina ou medicamentos”, explica.
A seguir, veja cinco pontos que ajudam a entender por que a glicose pode subir ao acordar.
1. Entender o que é o fenômeno do alvorecer
O fenômeno do alvorecer ocorre no final da madrugada, geralmente entre 4h e 6h da manhã. Nesse período, o organismo libera hormônios como cortisol e adrenalina.
Esses hormônios mobilizam glicose armazenada no fígado para fornecer energia ao corpo no início do dia.
Segundo Fernando Valente, esse processo ocorre em todas as pessoas.
“Quem não tem diabetes consegue neutralizar esse efeito com a liberação de insulina. Já quem tem diabetes pode não compensar essa elevação”, afirma.
Nesse cenário, a glicose pode subir sem que a pessoa tenha ingerido alimentos.
2. Verificar se houve hipoglicemia durante a madrugada
Nem toda glicose alta ao acordar ocorre pelo fenômeno do alvorecer. Outra possibilidade é o efeito Somogyi, situação em que ocorre primeiro uma hipoglicemia durante a madrugada.
Como resposta, o organismo libera hormônios como glucagon, adrenalina e cortisol para elevar a glicose. Esse mecanismo de defesa pode provocar glicemia elevada nas primeiras horas da manhã.
Por isso, segundo o endocrinologista, diferenciar as duas situações é essencial para definir o tratamento.
3. Avaliar o que foi consumido no jantar
A alimentação noturna também pode influenciar a glicose alta em jejum. Refeições ricas em gordura podem retardar a elevação da glicose no sangue.
Nesse caso, o aumento pode ocorrer cinco ou seis horas após a refeição, período que muitas vezes coincide com a madrugada.
Portanto, observar o padrão alimentar da noite anterior pode ajudar a identificar a causa da glicose alta matinal.
4. Observar rotina de sono, estresse e exercício
Além da alimentação, outros fatores podem interferir na glicose durante a madrugada.
Entre eles estão:
- exercício físico realizado à noite;
- privação de sono;
- estresse;
- uso de medicamentos como corticoides.
Segundo Fernando Valente, noites mal dormidas podem manter cortisol e adrenalina elevados, o que favorece aumento da glicose.
Enquanto isso, exercícios noturnos podem aumentar a sensibilidade à insulina e provocar hipoglicemia durante a madrugada.
5. Monitorar a glicose durante a madrugada
Para entender a causa da glicose alta pela manhã, o acompanhamento das variações ao longo da noite pode trazer respostas.
Uma estratégia possível é medir a glicose por volta de 3 horas da manhã.
Esse registro pode indicar se houve hipoglicemia antes da elevação matinal.
Além disso, tecnologias de monitoramento contínuo da glicose permitem observar tendências durante o sono.
“Essas informações ajudam o médico a avaliar se o problema é fenômeno do alvorecer, hipoglicemia noturna ou outro fator”, explica Fernando Valente.
Ajustes no tratamento dependem da causa
Quando a glicose sobe de forma recorrente pela manhã, o tratamento pode exigir ajustes.
Em pessoas que utilizam insulina NPH, por exemplo, o horário da aplicação pode influenciar o controle glicêmico.
O endocrinologista explica que o pico de ação da NPH ocorre cerca de seis horas após a aplicação. Se a dose for aplicada antes de dormir, esse pico pode coincidir com a liberação dos hormônios da madrugada.
Por outro lado, se houver hipoglicemia noturna, a estratégia pode ser reduzir a dose.
Por isso, especialistas reforçam que qualquer mudança deve ser feita com acompanhamento médico.