A educação em diabetes exige tempo e organização do sistema de saúde. Em alguns países da Europa, o cuidado inclui até internação hospitalar para garantir que o paciente aprenda a lidar com a doença.
Quem explica esse modelo é Carol Passone, médica endocrinologista pediátrica com atuação no SUS e na saúde suplementar e experiência no sistema público francês.
Segundo a especialista, pacientes recém-diagnosticados podem permanecer internados por até 15 dias. Durante esse período, a equipe de saúde ensina tudo o que envolve o tratamento do diabetes.
Internação garante ensino completo sobre diabetes
De acordo com Carol Passone, a educação em diabetes demanda tempo logo após o diagnóstico. No início do tratamento, o paciente precisa aprender diferentes etapas do autocuidado.
Entre os temas abordados estão monitoramento da glicose, uso de insulina, alimentação e prevenção de complicações. A endocrinologista afirma que esse processo exige cerca de 16 horas de orientação.
No entanto, muitos sistemas de saúde não reconhecem esse tempo dentro das consultas médicas. Por isso, países da Europa adotaram outra estratégia.
Sistema de saúde europeu usa internação para remunerar educação em diabetes
Segundo Carol Passone, alguns países da Europa resolveram o problema da remuneração da educação em diabetes por meio da internação hospitalar. Nesses casos, o paciente permanece no hospital enquanto aprende a manejar o tratamento.
“Na França e na Europa, eles internam por até 15 dias. O paciente só sai depois que aprende tudo o que precisa para se cuidar”, relata a endocrinologista.
Nesse modelo, a internação permite que o sistema de saúde pague pelo tempo dedicado ao ensino. Portanto, o hospital se torna o espaço onde o paciente recebe orientação intensiva sobre o tratamento.
Paciente recebe alta apenas depois de aprender o tratamento
Durante a internação, a equipe multiprofissional acompanha o processo de aprendizagem. Enquanto isso, o paciente pratica atividades relacionadas ao controle do diabetes.
Segundo Carol Passone, a alta hospitalar ocorre apenas quando a pessoa demonstra que compreendeu as orientações.
“É a forma que o sistema encontrou para cobrar o ensino”, explica.
Nesse contexto, o modelo prioriza a formação do paciente para o autocuidado desde o início do tratamento.
Falta de leitos impede modelo semelhante no Brasil
Apesar do exemplo europeu, o Brasil enfrenta limitações estruturais para adotar estratégia semelhante. Segundo Carol Passone, hospitais brasileiros lidam com falta de leitos e grande demanda por internações.
Por isso, manter pacientes internados apenas para educação em diabetes não se torna viável.
“Aqui a gente não pode fazer isso no leito. A gente tem falta de leito”, afirma.
Enquanto isso, muitos pacientes iniciam o tratamento sem receber toda a orientação necessária.
Especialista aponta necessidade de novos modelos de educação em diabetes
Diante desse cenário, Carol Passone defende que o sistema de saúde brasileiro precisa discutir novas formas de garantir educação em diabetes. Entre as possibilidades, ela cita a criação de consultas específicas para ensino do tratamento.
Além disso, o modelo de remuneração poderia reconhecer o tempo que profissionais dedicam à orientação do paciente.
Para a endocrinologista, o aprendizado faz parte do cuidado.
“Sem educação, o tratamento começa incompleto”, conclui.