Medir a glicemia antes de descer uma pista de gelo a mais de 100 km/h. Ajustar a dose de insulina minutos antes de uma prova decisiva. Controlar a ansiedade sem deixar a glicose despencar. Para quatro atletas que estiveram nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026, isso não foi metáfora motivacional — foi rotina.
Além disso, as histórias deles ganham ainda mais relevância em um momento em que a tecnologia de monitoramento contínuo de glicose avança rapidamente. Cada vez mais pessoas com diabetes tipo 1 querem saber até onde podem ir. A resposta, ao que tudo indica, é: muito mais longe do que se imagina.
O que é diabetes tipo 1 — e por que o esporte exige atenção redobrada
O diabetes tipo 1 é uma condição autoimune. Nesse caso, o sistema imunológico ataca as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Sem esse hormônio, o organismo não consegue utilizar a glicose como fonte de energia. Por isso, a pessoa depende de insulina exógena todos os dias.
No entanto, o exercício físico acrescenta uma camada extra de complexidade. Dependendo da intensidade e da duração da atividade, a glicemia pode cair rapidamente, provocando hipoglicemia. Por outro lado, em situações de estresse e alta adrenalina, ela também pode subir.
Portanto, cada treino exige planejamento individualizado. Em competições olímpicas, essa estratégia precisa ser ainda mais precisa. Segundo a American Diabetes Association, pessoas com diabetes tipo 1 podem praticar exercícios intensos com segurança, desde que contem com monitorização frequente e acompanhamento especializado.
É exatamente isso que os atletas a seguir demonstram na prática.
Hannah Schmidt: velocidade, pódios e diagnóstico aos 12 anos
A canadense foi diagnosticada com diabetes tipo 1 ainda na adolescência. Mesmo assim, construiu carreira sólida no ski cross, modalidade marcada por alta velocidade, saltos e contato físico.

Além de representar o Canadá desde 2018, ela acumulou vitórias e pódios em etapas da Copa do Mundo. No ski cross, frações de segundo definem resultados. Assim, qualquer oscilação glicêmica pode impactar tempo de reação e tomada de decisão.
Ainda assim, com monitorização contínua e ajustes precisos de insulina, Schmidt mostrou que é possível competir — e vencer — no mais alto nível.
Rasmus Wranå: o diagnóstico após o ouro olímpico
O sueco já havia conquistado ouro olímpico quando, anos depois, recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1. Os sintomas — perda de peso, sede intensa e fadiga — mudaram sua rotina. Contudo, não encerraram sua carreira.

Em Milano Cortina 2026, ele voltou ao pódio. O curling exige concentração prolongada e controle emocional refinado. Portanto, manter a glicemia estável é tão estratégico quanto executar a jogada perfeita.
Nesse sentido, Wranå reforça que controle adequado permite alto desempenho, mesmo sob pressão extrema.
Kaapo Kakko: disciplina dentro e fora do gelo
O finlandês convive com diabetes tipo 1 e doença celíaca desde a adolescência. Escolhido pelo New York Rangers no Draft de 2019 e posteriormente negociado com o Seattle Kraken, ele representou a Finlândia nos Jogos.

Sua rotina é metódica. Durante as partidas, mede a glicemia nos intervalos. Além disso, mantém alimentação previsível para reduzir variáveis e facilitar o ajuste de insulina.
Assim, Kakko mostra que monitorar não é sinal de fragilidade. Pelo contrário: é estratégia de alto rendimento.
Anna Fernstädt: diagnóstico às vésperas dos Jogos
Representando a República Tcheca no skeleton — modalidade em que o atleta desce de cabeça para baixo a mais de 130 km/h —, ela recebeu o diagnóstico poucas semanas antes de uma edição olímpica anterior.

Inicialmente, os sintomas foram atribuídos ao desgaste do treino. No entanto, a investigação confirmou o diabetes tipo 1. Mesmo diante do impacto, ela competiu e manteve desempenho expressivo.
Posteriormente, em Milano Cortina 2026, voltou mais experiente. Segundo relatos públicos, disciplina, rotina e suporte clínico foram fundamentais para manter a glicemia estável em provas de altíssima exigência.
O que esses atletas ensinam a quem vive com diabetes tipo 1
Em comum, todos adotam pilares claros: monitoramento frequente, ajustes individualizados de insulina, planejamento alimentar e acompanhamento médico constante. Ou seja, o controle não é improvisado — é estruturado.
Por outro lado, é importante evitar a romantização. Eles não são super-humanos. Ainda assim, demonstram que o diagnóstico não define limites fixos.
Além disso, a representatividade tem impacto concreto. Quando atletas olímpicos falam abertamente sobre diabetes tipo 1, ajudam a reduzir estigma, fortalecem a adesão ao tratamento e ampliam a percepção do que é possível.
Portanto, a principal mensagem não é de superação heroica. É de informação baseada em evidências: com acompanhamento adequado, o diabetes tipo 1 é compatível com vida ativa, produtiva — e, se assim for o desejo, até olímpica.
