A macaca-prego Chica, resgatada na Mata do Ipê, em Uberaba (MG), no dia 14 de janeiro de 2026, recebeu diagnóstico de diabetes mellitus após 25 dias de internação no Hospital Veterinário da Uniube (HVU), e o caso acende alerta nacional sobre alimentação de animais silvestres.
Servidores municipais recolheram o animal em estado apático. A equipe identificou broncopneumopatia por radiografia torácica e iniciou antibioticoterapia, analgesia e suporte metabólico. Ainda na admissão, exames laboratoriais apontaram hiperglicemia. No entanto, os profissionais não fecharam o diagnóstico de diabetes naquele momento.

Segundo o médico-veterinário Cláudio Yudi Kanayama, o estresse agudo de captura eleva cortisol e catecolaminas, o que pode causar hiperglicemia transitória. Além disso, sedativos utilizados em procedimentos anestésicos também interferem temporariamente na glicemia. Portanto, a equipe aguardou estabilização clínica antes de confirmar a doença.
Após 19 dias, com melhora respiratória e adaptação ao ambiente hospitalar, os profissionais repetiram os exames. A dosagem de hemoglobina glicada, marcador de hiperglicemia crônica, confirmou o diagnóstico de diabetes mellitus.
Diagnóstico de diabetes mellitus em primatas fora do cativeiro
Estudos publicados na revista Zoo Biology indicam que a diabetes em primatas ocorre com mais frequência em animais de cativeiro. Segundo levantamento internacional, 28% das instituições zoológicas norte-americanas relataram ao menos um caso ativo. Por outro lado, registros em primatas de vida livre permanecem raros no Brasil.

Nesse contexto, o caso de Chica ganha relevância clínica e ambiental. A equipe técnica associa a causa mais provável à alimentação inadequada oferecida por frequentadores da área verde.
“A macaca estava recebendo alimentos inadequados, principalmente carboidratos simples, como pão de queijo e bolachas, oferecidos por visitantes. Isso resultou em condição metabólica que comprometeu permanentemente sua saúde”, informou o veterinário responsável.
Alimentar animais silvestres pode causar diabetes e outros distúrbios
Especialistas apontam que oferecer alimentos a animais silvestres provoca distúrbios metabólicos, como diabetes e obesidade. Além disso, pode gerar dependência alimentar e perda da capacidade de forrageamento. Enquanto isso, alterações comportamentais e aumento de agressividade também aparecem com frequência.
Ainda assim, o impacto não se limita ao indivíduo. A prática amplia o risco de transmissão de zoonoses e contribui para desequilíbrio ecológico. Portanto, autoridades recomendam que a população não alimente animais em parques ou áreas de preservação.
Profissionais orientam que adultos eduquem crianças sobre respeito à fauna no habitat natural. Além disso, pedem apoio a políticas públicas de conservação. Ao encontrar animal em risco, a recomendação é acionar instituições especializadas ou a Polícia Ambiental.
Manejo permanente e impossibilidade de retorno à natureza
Durante a internação, a equipe implementou protocolo com redução de carboidratos simples e aumento de vegetais frescos. No entanto, o prognóstico exige cuidado permanente.
“O caso demonstra que, uma vez instalada, a diabetes mellitus em primatas exige monitorização contínua, medicamentos diários, dieta controlada e exames periódicos. A natureza não oferece essas condições”, explicou Kanayama.
Por esse motivo, Chica não poderá retornar à vida livre. O animal aguarda encaminhamento ao Instituto Estadual de Florestas (IEF), que definirá instituição habilitada para manejo permanente.
A Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Uberaba, por meio do secretário Edno Cesar da Silveira, informou que acompanha o caso desde o encaminhamento ao HVU. Segundo a pasta, a Superintendência de Bem-Estar Animal atua em parceria com o hospital e apoiará o IEF na busca por instituição apta ao cuidado contínuo.
Para os profissionais envolvidos, o caso ultrapassa o episódio clínico individual.
“Queremos que essa história sirva como alerta nacional. Alimentar um animal silvestre pode resultar em doença crônica irreversível”, concluiu o veterinário.