Sou Elô. Antes de qualquer título. “Sou Elô.” Antes de ser advogada, mãe ou referência na comunidade do diabetes, é assim que Maria Eloisa Malieri se apresenta. Com uma simplicidade que guarda, por dentro, quatro décadas de travessias, aprendizados e uma humanidade construída na experiência de viver com diabetes tipo 1 desde os 11 anos de idade.
O diagnóstico chegou no dia 25 de dezembro de 1985 — um Natal que transformou não apenas a rotina de uma menina, mas a trajetória de toda uma família. Naquela época, Elô não compreendia completamente o peso daquele momento.

“Eu era muito criança para entender o que o diabetes representava. O que senti de forma mais profunda não foi o peso da doença, mas a dor de perceber a dor dos meus pais.”
Ainda assim, a infância foi marcada por cenas simples e profundamente felizes: os verões no Guarujá, as risadas em família, o amor presente nos pequenos gestos. Eles nunca ensinaram a filha a viver com medo. Ensinaram-na a viver com dignidade. O diagnóstico não apagou aquela menina. Transformou-a.
Quarenta anos de diabetes tipo 1: o que a condição ensinou sobre humanidade
Quatro décadas convivendo com diabetes tipo 1 oferecem uma perspectiva que poucos têm. Para Elô, a condição foi uma escola particular de humanidade, não apenas sobre cuidados com o corpo, mas sobre o valor da coletividade e o respeito às diferenças.

“O diabetes me trouxe algo que vai muito além do cuidado com o corpo: o verdadeiro significado da humanidade. Me ensinou que o mundo é feito de inúmeras existências e que a verdadeira inclusão nasce da capacidade de reconhecer e respeitar essa diversidade.”
No entanto, a trajetória não foi isenta de momentos de fragilidade. Elô fala com abertura sobre um período em que desenvolveu diabulimia — condição que combina o manejo inadequado da insulina com comportamentos alimentares não saudáveis, ainda pouco reconhecida nos contextos clínico e social.

“Não foi apenas sobre insulina ou peso, mas sobre emoções, dores silenciosas que eu ainda não sabia nomear. Hoje olho para esse período com compaixão, não com culpa”, conta.
Além disso, foi justamente um limite imposto pelo diagnóstico que acabou direcionando sua carreira. Ao tentar doar sangue na faculdade e ser impedida por ser diabética, Elô não reagiu com revolta, reagiu com perguntas. Esse questionamento gerou seu trabalho de conclusão de curso sobre conscientização e captação de doadores de sangue, reconhecido como o melhor da turma.
“Compreendi que um limite não precisa ser um ponto final. Ele pode ser um ponto de partida.”

Maternidade e diabetes tipo 1: o capítulo mais humano
Se há um tema que Elô aborda com a combinação mais delicada de dor e gratidão, é a maternidade. Durante anos, ela ouviu de médicos que talvez não pudesse ser mãe. O “não” é frequente para mulheres com diabetes tipo 1 — ainda mais quando associado, como no seu caso, ao hipotireoidismo de Hashimoto.
“Tenho percebido que a palavra NÃO é muito mais falada para mulheres com diabetes que têm o desejo de ser mãe do que para aquelas que não têm a condição. Cada mulher deve ser avaliada individualmente, mas, acima de tudo, os profissionais devem procurar meios de transformar essa vontade em realidade.”
Quando Elô conheceu seu marido Marco Antônio e decidiu buscar um médico para entender se a maternidade seria possível, descobriu que já estava grávida de 12 semanas. A alegria, porém, veio acompanhada de intercorrências. Ela perdeu o primeiro filho, Guilherme, com 30 semanas de gestação.
“Vivi meu luto, respeitei o tempo da dor, do silêncio e da reconstrução. Até que algo dentro de mim mudou: ‘Você ainda quer ser mãe?’ — e eu respondi: ‘Eu quero.'”
Depois vieram Maria Eduarda (Duda) e Maria Luiza (Malu) — duas gestações que trouxeram, nas palavras de Elô, a confirmação de que o amor é maior do que o medo. Ainda assim, ela carrega os três filhos no coração:

“Sou mãe de três: um que habita um plano invisível, e duas que caminham ao meu lado todos os dias.”
Direito à saúde: defender o que viveu na pele
A escolha pela advocacia, com especialização em direito à saúde, não foi aleatória. Nasceu da vivência, mas também das fragilidades e lacunas do próprio sistema, que Elô conheceu de dentro, como paciente, antes de compreendê-las como profissional.

“Minha escolha pelo direito nasceu como uma consequência natural de quem compreendeu, na própria pele, o valor do acesso e da autonomia no cuidado”, explica. “Não é apenas formação técnica — é a experiência concreta de quem enfrentou as falhas do sistema e decidiu que isso não poderia seguir sem resposta.”
Nesse contexto, surgiu também o Eloebete — espaço criado por ela para transformar vivência em linguagem, acolhimento e conscientização. Por meio desse projeto, Elô vai além da advocacia e constrói pontes entre o conhecimento técnico e a realidade cotidiana de quem convive com o diabetes, oferecendo informação com empatia e identidade.

Além disso, Elô integra o programa DiabetesCast, ao lado do jornalista Tom Bueno, onde leva orientação e acolhimento para a comunidade diabética. Uma extensão natural de tudo que ela representa: alguém que transformou a própria experiência em serviço ao próximo.

A força que a vida exige e a escolha de estar bem
Além das perdas ligadas à maternidade, Elô enfrentou outros momentos de ruptura: o falecimento do pai, seu “herói e porto seguro”, e o quase adeus do marido, que sobreviveu a dois AVCs e a um assalto com tiro. Cada evento reafirmou, com mais intensidade, a consciência sobre a brevidade da vida.

“Com o passar dos anos, compreendi que a força não é algo que simplesmente possuímos — é algo que nos é exigido pela própria vida. Não é uma força constante ou inabalável. Existem dias em que estou bem, e existem dias em que não estou. E isso também faz parte de ser humano.”

Por outro lado, é justamente essa consciência da fragilidade que sustenta Elô. A mensagem que ela daria hoje à menina de 11 anos que recebeu o diagnóstico naquele Natal de 1985 é também uma mensagem para todos que convivem com o diabetes:
“Não perca o brilho no olhar. Não perca a capacidade de sonhar. Haverá dias difíceis, de dor, de perdas e de questionamentos. Mas também haverá dias de amor indescritível, reencontros e de vida pulsando em todas as suas formas. Continue.”
Sou Elô. Simplesmente Elô.
QUEM É ELÔ

Maria Eloisa Malieri vive com diabetes tipo 1 desde 1985. É advogada especializada em direito à saúde, criadora do Eloebete — espaço de vivência, acolhimento e conscientização sobre diabetes —, mãe de Duda e Malu (e do anjo Gui) e integrante do programa DiabetesCast, ao lado do jornalista Tom Bueno. Atua como referência na comunidade diabética, combinando experiência pessoal e expertise jurídica para defender o acesso à saúde com autonomia e respeito.