Enquanto a atenção internacional se volta para a guerra, pessoas com diabetes tipo 1 em Gaza enfrentam dificuldades no tratamento da doença. Relatos coletados pela T1International mostram insulina vencida, escassez de tiras de teste e ausência de consultas médicas.
A T1International é uma organização sem fins lucrativos que defende os direitos de pessoas com diabetes tipo 1 em todo o mundo. Além disso, a entidade realiza pesquisas, coleta relatos e mobiliza governos e instituições de saúde para garantir acesso contínuo a insulina e materiais de monitoramento, especialmente em regiões afetadas por crises humanitárias.
O levantamento em Gaza foi publicado e conduzido por Ali Hisham, consultor regional para Oriente Médio e Norte da África, e Mohammed Seyam, ex-líder do capítulo #insulin4all da organização. Eles documentaram experiências de jovens em diferentes áreas da Faixa de Gaza.
Insulina vencida e racionamento
A Organização Mundial da Saúde considera a insulina um medicamento essencial. Entretanto, em Gaza, quase todo o estoque disponível está vencido. O armazenamento inadequado compromete a eficácia, que depende de refrigeração contínua.
Lojain, 20 anos, perdeu a casa em bombardeios e depende de uma única caneta de insulina vencida. Além disso, ela relata que as tiras de teste desapareceram e só realiza medições em situações críticas.
Hamza, 20 anos, precisa percorrer 25 quilômetros entre escombros para conseguir insulina no sul da região. Por outro lado, ele não consegue o tipo prescrito e utiliza qualquer insulina disponível, dificultando o controle glicêmico.
Falta de testes aumenta risco de complicações
O monitoramento da glicemia é fundamental para ajustar doses de insulina, alimentação e atividades. Sem tiras de teste, pacientes não identificam hipoglicemias e hiperglicemias precocemente. Portanto, o risco de complicações graves aumenta consideravelmente.
Nariman, 22 anos, ficou 12 dias sem insulina e sem alimentos. Nesse período, apresentou episódios repetidos de hipoglicemia e não conseguiu realizar atividades básicas. Ainda assim, a ausência de atendimento médico impede a prevenção de complicações agudas, como cetoacidose diabética.
Sistema de saúde em colapso
O sistema de saúde de Gaza sofreu interrupções estruturais. Consultas ambulatoriais, exames laboratoriais e suporte multiprofissional estão suspensos em diversas áreas. Além disso, relatos apontam insegurança alimentar e consumo de alimentos inadequados.
A combinação de desnutrição, insulina inadequada e falta de monitoramento altera o metabolismo e dificulta o controle da glicemia. Nesse contexto, os pacientes ficam mais vulneráveis a complicações de curto e longo prazo.
Estudos publicados pelo The Lancet mostram que conflitos armados aumentam a mortalidade por doenças crônicas, incluindo diabetes tipo 1, devido à interrupção de cuidados contínuos.
Demandas de T1International
A T1International solicita fornecimento contínuo de insulina dentro do prazo de validade, distribuição regular de tiras de teste e retomada de consultas médicas especializadas.
Além disso, a organização recomenda suporte psicológico para pacientes expostos a trauma prolongado. A interrupção do fornecimento contraria recomendações internacionais da Organização Mundial da Saúde sobre acesso a medicamentos essenciais.
Enquanto negociações diplomáticas discutem cessar-fogo, pessoas com diabetes tipo 1 em Gaza seguem sem garantia de tratamento contínuo. Portanto, uma condição crônica controlável se transforma em risco imediato à vida.
Referências
T1International. Voices from Gaza: Rationing expired insulin and lacking test strips. 16 fev. 2026. Disponível em: https://www.t1international.com
Organização Mundial da Saúde. WHO Model List of Essential Medicines. Disponível em: https://www.who.int
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes. Disponível em: https://www.diabetes.org.br
The Lancet. Health in conflict settings – impact on noncommunicable diseases. Disponível em: https://www.thelancet.com