O acesso ao sensor de glicose no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não é política nacional. No entanto, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, um programa municipal passou a oferecer gratuitamente o FreeStyle Libre para crianças com diabetes tipo 1.
Ricardo Alves Brandão, de 7 anos, recebeu o diagnóstico em novembro de 2024. Ele também convive com autismo. Desde fevereiro de 2025, utiliza o sensor de glicose disponibilizado pelo município.
Logo ao acordar, a família mede a glicose. A leitura orienta o café da manhã e a dose de insulina. Como Ricardo tem seletividade alimentar, o planejamento das refeições passou a considerar as curvas glicêmicas mostradas pelo sensor.
Monitoramento contínuo muda a rotina de quem convive com diabetes tipo 1
Na escola, Ricardo mede a glicose com o leitor. Quando identifica valores elevados, aplica insulina. Segundo a família, o monitoramento contínuo permite agir antes que a glicemia suba ou caia de forma acentuada.
Durante a noite, o recurso também alterou a dinâmica da casa. Antes, a família não conseguia prever a tendência da glicose apenas com a ponta de dedo. Agora, observam a seta de tendência e avaliam se o nível está estável.
Quando a glicose marca 130 mg/dL com indicação de estabilidade, os pais relatam que conseguem dormir. Ainda assim, mantêm vigilância constante.
A mãe, Daniela Brandão, afirma que as leituras do sensor e da ponta de dedo apresentam valores próximos. Segundo ela, a diferença costuma ser mínima.
Programa municipal amplia acesso ao sensor de glicose no SUS local
Desde fevereiro de 2025, quase 50 crianças entre 4 e 11 anos recebem o sensor gratuitamente em Uberaba. O programa foi estruturado pelo Centro Municipal de Diabetes e Hipertensão.
Todo mês, as crianças participam do Hiper-dia infantil. Nesse encontro, a equipe formada por endocrinopediatra, nutricionista e profissionais de enfermagem baixa os dados do sensor. Além disso, apresenta as curvas glicêmicas aos pais e define ajustes na insulina.
De acordo com a Elisabete Mantovani, endocrinologista responsável pelo desenho do programa, as crianças passaram a chegar com melhor controle glicêmico nas consultas. A equipe compara resultados anteriores com os atuais para avaliar a evolução.
Ela afirma que, antes do monitoramento contínuo, algumas crianças permaneciam longos períodos sem medir a glicose. Em alguns casos, chegavam ao hospital com cetoacidose. No entanto, o município ainda realiza levantamento formal sobre internações recentes.
Gestão pública e impacto orçamentário
A secretária municipal de Saúde, Valdilene Rocha Alves, informou que foi necessária adequação no Plano Municipal de Saúde e na programação anual. Além disso, a proposta foi discutida no Conselho de Saúde, por se tratar de nova política pública.
Segundo a gestora, o município buscou recursos por meio de emenda parlamentar para adquirir os sensores. Portanto, o programa exigiu planejamento financeiro e definição de público-alvo.
A iniciativa foi posteriormente ampliada para gestantes com diabetes gestacional e para mulheres com diabetes prévio que necessitam de monitoramento durante a gravidez.
Acompanhamento nutricional e uso dos dados
Samuel Oliveira de Farias, outro beneficiário do programa, realiza acompanhamento com nutricionista. Por meio do histórico registrado pelo sensor, a equipe avalia a alimentação ao longo das semanas.
Nesse contexto, o registro contínuo facilita identificar picos após refeições. Assim, profissionais ajustam orientações alimentares e doses de insulina com base em dados consolidados.
Para as crianças, o dispositivo também reduz a necessidade de múltiplas perfurações diárias nos dedos. Segundo relato, o dedo deixava de doer menos com o uso do sensor.