Para quem vive com diabetes tipo 1, a produção de insulina pelo próprio corpo parece algo distante. No entanto, nos últimos anos, pacientes voltaram a produzir insulina após transplante de células das ilhotas pancreáticas. Embora não seja uma cura definitiva, o avanço muda o cenário científico e levanta uma pergunta real: estamos mais perto de uma cura funcional do diabetes tipo 1?
O caso de Ed Augustin ajuda a entender o impacto prático dessa nova fase.
Hipoglicemia grave levou à indicação do transplante
Ed convivia com hipoglicemias severas e perda da percepção dos sintomas. Em um episódio, ficou desorientado e entrou no quintal de uma festa, sendo confundido com alguém alcoolizado. Entretanto, um convidado reconheceu o quadro e acionou o serviço de emergência.
Ele relatava não sentir os sinais clássicos de queda de glicose. Portanto, mesmo caminhando e conversando, estava em risco. Nesse contexto, os médicos indicaram o transplante de células produtoras de insulina, pois o risco de novos episódios graves era elevado.
Lantidra é o primeiro transplante aprovado pelo FDA
Em agosto de 2025, Ed recebeu o Lantidra no University of Illinois Hospital. O procedimento utiliza ilhotas pancreáticas de um doador falecido, que são infundidas no fígado por meio de cateter. Essas células passam a produzir insulina ao detectar glicose no sangue.
Segundo dados apresentados na American Diabetes Association, em estudo com 30 adultos com hipoglicemia grave e perda de percepção, cerca de dois terços deixaram de usar insulina um ano após o último transplante. Além disso, episódios de hipoglicemia grave foram eliminados nesse grupo.
Ed já havia participado de um protocolo experimental anterior, que manteve produção de insulina por aproximadamente 12 anos. Quando as células perderam função, ele voltou às aplicações diárias até receber o novo tratamento, que pode durar de 15 a 20 anos.
Transplante de ilhotas exige imunossupressão contínua
O transplante de células produtoras de insulina exige uso permanente de medicamentos imunossupressores. Portanto, o paciente precisa de exames frequentes e ajustes de dose para evitar rejeição.
Especialistas alertam que a imunossupressão não é seletiva. Ou seja, reduz a defesa do organismo como um todo. Assim, infecções que seriam leves podem se tornar mais graves. Por isso, a terapia é indicada apenas quando o risco da hipoglicemia grave supera o risco infeccioso.
Nesse contexto, o transplante não é indicado para a maioria das pessoas com diabetes tipo 1, mas para casos muito específicos.
Células-tronco ampliam as possibilidades
Além dos transplantes com células de doadores, novas terapias usam células-tronco cultivadas em laboratório. A Vertex Pharmaceuticals desenvolveu o zimislecel, que utiliza células derivadas de células-tronco capazes de produzir insulina.
Em estudo clínico publicado no The New England Journal of Medicine, 12 pessoas com diabetes tipo 1 receberam a terapia. Após um ano, dez deixaram de usar insulina. Os outros dois reduziram significativamente as doses e passaram cerca de 70% do tempo na faixa-alvo.
No entanto, os participantes também utilizaram imunossupressores. Além disso, o número de pacientes ainda é pequeno, o que exige estudos maiores para confirmar segurança e durabilidade do efeito.
Edição genética busca evitar rejeição
Outra estratégia envolve modificar geneticamente as células antes do transplante. A Sana Biotechnology utilizou a técnica CRISPR-Cas9 para alterar células das ilhotas pancreáticas, tentando torná-las “invisíveis” ao sistema imunológico.
O caso foi publicado no The New England Journal of Medicine e descreve um paciente que passou a produzir insulina sem imunossupressão. Além disso, as células foram implantadas no antebraço, procedimento menos invasivo do que a infusão no fígado.
Por outro lado, trata-se de um único paciente. Portanto, não é possível generalizar os resultados. Ensaios clínicos adicionais serão necessários antes de qualquer aprovação regulatória.
O que isso muda para quem vive com diabetes tipo 1?
Hoje, a maioria das pessoas com diabetes tipo 1 continua dependente de insulina exógena. Ainda assim, os transplantes mostram que é possível restaurar a produção de insulina em humanos.
Entretanto, existem limitações importantes:
- necessidade de imunossupressão contínua
- acesso restrito a centros especializados
- custo elevado, estimado em cerca de 300 mil dólares nos EUA
- indicação limitada a casos graves
Portanto, não se trata de uma cura disponível para todos. Ainda assim, o cenário mudou. Antes, falava-se em hipótese laboratorial. Agora, há pacientes produzindo insulina novamente por anos.
Nesse contexto, especialistas consideram que a discussão deixou de ser “se é possível” e passou a ser “quando e para quem será viável”.
Para quem convive com diabetes tipo 1, a mensagem é clara: o tratamento atual continua sendo essencial. No entanto, a terapia celular deixou de ser promessa distante e passou a ser uma opção real para situações selecionadas.
Referências
- Diatribe – State of the Cure: Cell Therapy Breakthroughs
- American Diabetes Association – Scientific Sessions
https://diabetes.org - The New England Journal of Medicine
https://www.nejm.org - FDA – Approval of Lantidra
https://www.fda.gov - Vertex Pharmaceuticals
https://www.vrtx.com - Sana Biotechnology – CRISPR em células das ilhotas pancreáticas
https://www.sanabiotech.com