O crescimento da obesidade no Brasil tem alterado de forma significativa o perfil do diabetes e exposto limitações na maneira como a doença é explicada à população. Durante décadas, o diabetes foi associado quase exclusivamente ao consumo excessivo de açúcar. No entanto, evidências atuais indicam que essa relação isolada não explica o aumento dos casos no país.
Mudança no perfil do diabetes
Segundo o endocrinologista João Salles, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o diabetes passou por transformações que exigem uma revisão do discurso público sobre prevenção.
“O diabetes vem mudando radicalmente. Hoje ele está muito ligado à obesidade e ao envelhecimento da população”, afirmou.
De acordo com ele, a maioria das pessoas diagnosticadas com diabetes tem mais de 65 anos. Além disso, cresce a identificação da doença em faixas etárias antes menos afetadas, incluindo crianças e adolescentes com diabetes tipo 2.
O mito do açúcar e a falsa sensação de proteção
Apesar dessas mudanças, a crença de que o diabetes surge apenas pelo consumo de açúcar ainda é predominante. Essa visão, segundo Salles, contribui para uma percepção distorcida do risco.
“Se você parar dez pessoas na rua e perguntar o que causa diabetes, a maioria vai responder que é comer doce. Isso não é verdade”, disse.
Esse entendimento simplificado pode levar pessoas com obesidade a subestimarem o próprio risco, especialmente quando não consomem açúcar com frequência.
“A pessoa com obesidade que não come doce acha que está imune ao diabetes. Não está”, afirmou o presidente da SBD.
Obesidade como fator central de risco
A Sociedade Brasileira de Diabetes aponta a obesidade como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do diabetes, independentemente do consumo direto de açúcar.
“Não é só não comer açúcar que previne o diabetes. Prevenir a obesidade é fundamental”, destacou Salles.
Segundo ele, o acúmulo de gordura corporal altera mecanismos metabólicos associados à resistência à insulina, o que aumenta o risco de desenvolvimento da doença ao longo do tempo.
Nesse contexto, a prevenção precisa ir além de orientações alimentares pontuais e considerar o controle do peso como eixo central.
Impactos práticos na prevenção
Para a Salles, estratégias eficazes de prevenção devem incluir estímulo à atividade física, reeducação alimentar, acompanhamento médico e acesso à informação qualificada. Além disso, João ressalta que pessoas com obesidade enfrentam maior dificuldade para perder peso após o diagnóstico de diabetes tipo 2.
“Os estudos mostram que quem tem diabetes tipo 2 perde menos peso do que quem não tem, mesmo usando os mesmos medicamentos”, explicou.
Por isso, a entidade reforça a importância de atuar antes do surgimento da doença.
Letramento em saúde como prioridade
Outro ponto central da nova gestão da SBD é o letramento em saúde. Diante disso, o presidente fala como a forma do risco é comunicado influencia diretamente o comportamento da população.
“Falar de diabetes em um português fácil, mas correto, é um desafio. A desinformação atrapalha a prevenção”, afirmou.
A entidade defende que a comunicação sobre diabetes e obesidade deve evitar simplificações excessivas e estigmas, permitindo que a população compreenda a complexidade da doença.
