Na noite desta sexta-feira, 30 de janeiro, o endocrinologista João Eduardo Salles tomou posse como novo presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Durante a cerimônia, ele deixou claro que educar médicos da atenção primária será o eixo central da nova gestão, já que é nesse nível do sistema que acontece o cuidado da maioria das pessoas com diabetes no Brasil.
Nesse contexto, a fala conecta a missão institucional da entidade à realidade dos postos de saúde. “A Sociedade Brasileira de Diabetes tem o papel de levar educação, apoio, acolhimento e tratamento às pessoas com diabetes”, afirmou Salles. No entanto, segundo ele, essa missão só se concretiza quando chega aos profissionais que atuam na porta de entrada do sistema.
Educar médicos da atenção primária onde o cuidado com o diabetes começa
A atenção primária é o primeiro contato da população com o sistema de saúde. Na prática, trata-se do atendimento realizado nos postos de saúde, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nas unidades da Estratégia Saúde da Família, como esses serviços são mais conhecidos pela população.
É nesse nível que acontecem o diagnóstico, o início do tratamento e o acompanhamento contínuo do diabetes. Além disso, dados apresentados pelo próprio presidente indicam que mais de 95% das pessoas com diabetes no Brasil são atendidas fora dos consultórios especializados. Portanto, educar médicos da atenção primária significa atuar exatamente onde o cuidado acontece.
“Eu me coloquei no lugar do médico da atenção primária, que cuida da grande maioria desses pacientes, e me perguntei como esse profissional consegue se atualizar diante de tantas mudanças no tratamento do diabetes”, disse durante a posse.
“A culpa não é do médico”, diz o novo presidente da SBD
Esse ponto foi aprofundado na primeira entrevista de João Salles como presidente da SBD ao DiabetesCast. Segundo ele, o problema central não é a falta de médicos, mas a formação insuficiente para lidar com doenças crônicas complexas.
“O número de escolas médicas quadruplicou nos últimos 20 anos. Portanto, médico tem, e vai ter mais ainda. O problema é que a formação não termina na faculdade”, afirmou. Ainda assim, muitos profissionais tiveram contato limitado com o tema durante a graduação.
“A culpa não é do médico. Ao contrário, a responsabilidade também é das sociedades médicas, que não estão ensinando diabetes para quem cuida do paciente todos os dias”, disse. Nesse sentido, educar médicos da atenção primária passa a ser uma responsabilidade institucional, e não individual.
Quem é João Salles e sua trajetória na Santa Casa de São Paulo
João Eduardo Salles é endocrinologista, professor adjunto e coordenador da disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Além disso, atua desde 2000 na formação médica e é diretor do Departamento de Clínica Médica da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, hospital terciário com mais de 500 leitos e dezenas de programas de residência.
Segundo ele, essa vivência acadêmica e assistencial influencia diretamente sua visão sobre educar médicos da atenção primária. “Esses desafios me deram aprendizado para entender como levar educação de forma prática e aplicável”, afirmou.
Plataforma digital para educar médicos da atenção primária nos municípios
Um dos principais projetos da nova gestão é a criação de uma plataforma digital gratuita para educar médicos da atenção primária e capacitar equipes de saúde em todo o país. Nesse contexto, Salles ressaltou que o cuidado básico no Brasil é municipalizado.
“A atenção primária é do município. Por isso, estamos fazendo um trabalho de formiguinha, indo de cidade em cidade”, explicou. Ao mesmo tempo, a proposta é ampliar o alcance por meio de uma plataforma online, acessível às prefeituras e integrada a programas federais.
Segundo ele, educar médicos da atenção primária por meio de ferramentas digitais é a forma mais viável de alcançar um país com mais de 5.700 municípios.
Do pré-diabetes às complicações: educação como estratégia
De acordo com João Salles, o conteúdo da plataforma será progressivo. Assim, vai abranger diagnóstico, rastreio, tratamento e prevenção de complicações. A lógica é simples: quanto mais cedo a informação chega, melhor o cuidado.
“Se eu for efetivo na educação, eu diminuo complicações. Ainda assim, hoje chegamos tarde para muitos pacientes”, afirmou. Portanto, educar médicos da atenção primária também é uma forma de reduzir internações e sequelas evitáveis.
Equipe multidisciplinar e mudança de linguagem
Outro ponto central da nova gestão é valorizar o trabalho das equipes multidisciplinares. Enfermeiros, nutricionistas e agentes comunitários foram citados como fundamentais no cuidado diário.
“A equipe multidisciplinar, muitas vezes, é mais efetiva porque passa mais tempo com a pessoa com diabetes”, afirmou. Nesse cenário, educar médicos da atenção primária também envolve integrar esses profissionais e melhorar a comunicação com o paciente.
Um desafio nacional com impacto direto na vida real
Ao assumir a presidência da SBD, João Salles reconhece o tamanho do desafio. Ainda assim, ele aposta na educação como legado. “Se eu não posso mudar a genética, posso tentar mudar o ambiente”, afirmou.
Para o novo presidente, educar médicos da atenção primária é essencial para transformar o cuidado com o diabetes, reduzir desigualdades e melhorar a vida de milhões de brasileiros.
