Promessas de “controle da glicose” em cápsulas invadiram redes sociais, anúncios patrocinados e grupos de mensagens. Além disso, influenciadores relatam resultados rápidos, enquanto marcas usam termos como “natural” e “cientificamente comprovado”. No entanto, o discurso comercial nem sempre acompanha o que a ciência sustenta. Diante desse cenário, a reportagem ouviu especialistas para separar fatos de exageros.
Segundo a nutricionista Tarcila de Campos, do departamento científico da Sociedade Brasileira de Diabetes, suplementos podem atuar como coadjuvantes, mas não tratam diabetes nem garantem controle glicêmico isoladamente.
“Pessoas com diabetes devem sempre discutir o uso de suplementos com sua equipe de saúde, considerando exames, medicações e objetivos terapêuticos”, afirma.
O que há dentro das fórmulas mais divulgadas
Ao analisar produtos populares, surgem compostos bioativos, vitaminas e minerais frequentemente associados a benefícios metabólicos. Entretanto, o contexto de uso faz toda a diferença.
A coenzima Q10, por exemplo, tem ação antioxidante e participa da função mitocondrial. Ainda assim, não há evidência robusta de efeito direto e clinicamente significativo na redução da glicemia. Portanto, seu papel não se compara ao de estratégias consagradas, como ajuste alimentar e atividade física regular.
Já as antocianinas da laranja moro e os compostos fenólicos da oliva aparecem em estudos observacionais ligados a benefícios cardiometabólicos. Contudo, esses efeitos dependem de padrões alimentares saudáveis e de consumo habitual. Em outras palavras, não configuram tratamento isolado para controle glicêmico.
O cromo, especialmente na forma de picolinato, é amplamente utilizado. No entanto, as evidências seguem inconsistentes quanto a impacto clínico relevante sobre a glicemia. Assim, não há base sólida para promessas universais de redução do açúcar no sangue.
Micronutrientes como zinco, selênio, vitaminas do complexo B, vitamina C, vitamina E e vitamina D cumprem funções importantes no organismo e na imunidade. Ainda assim, a suplementação mostra benefício mais claro apenas em casos de deficiência comprovada, o que reforça a avaliação individualizada.
Por que as promessas enganam
O marketing costuma simplificar uma condição complexa. Diabetes envolve múltiplos fatores, como genética, alimentação, sono, estresse, adesão ao tratamento e acesso ao cuidado. Portanto, soluções rápidas atraem, mas não sustentam resultados.
Além disso, muitos anúncios citam “estudos” sem esclarecer método, população avaliada ou relevância clínica. Nesse contexto, relatos individuais ganham destaque, enquanto dados consistentes ficam em segundo plano. Ainda assim, ciência exige repetição, controle e análise crítica.
O que realmente ajuda no controle da glicose
Especialistas são claros: educação em diabetes e cuidado contínuo fazem a diferença. Isso inclui plano alimentar personalizado, atividade física regular, monitorização glicêmica, uso correto de medicamentos e acompanhamento multiprofissional.
Suplementos podem até integrar esse plano, quando indicados. Porém, não substituem tratamento e não devem ser usados sem orientação profissional.
“Evite atalhos e promessas milagrosas”, reforça Tarcila de Campos.
Como o leitor deve se proteger
Antes de comprar, desconfie de frases absolutas. Procure rótulos transparentes, evite promessas de cura e converse com sua equipe de saúde. Além disso, lembre-se de que o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.
Por fim, vale destacar: o controle glicêmico sustentável não cabe em um frasco. Ele se constrói com informação de qualidade, escolhas consistentes e acompanhamento adequado. Suplementos, quando bem indicados, podem ajudar. Milagre, não.
