Recentemente, as redes sociais foram inundadas por um vídeo que espalha desinformação perigosa. O conteúdo viral alega que problemas dentários ou um parasita chamado Eurytrema pancreaticum seriam os responsáveis por “comer” o pâncreas, sugerindo tratamentos milagrosos. No entanto, é urgente compreender a causa científica do diabetes tipo 1 para não colocar a saúde em risco.
Para desvendar a verdade e combater essas mentiras, nossa equipe conversou com o Dr. Flávio Fontes Pirozzi, endocrinologista integrante do Programa Diabetes: Fato ou Fake da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Entenda a seguir o que realmente acontece no corpo de quem tem diabetes e porque você deve confiar na ciência.
A responsabilidade com a informação
Antes de explicar a fisiopatologia, precisamos abordar o perigo das notícias falsas. A internet está cheia de promessas sem embasamento, o que gera confusão e angústia em pacientes e familiares. O Dr. Flávio reforça a necessidade de ética ao comunicar sobre saúde:
“Em primeiro lugar, é sempre importante a gente ter um canal de comunicação em que a gente realmente possa passar aos pacientes, familiares […] de uma forma ética, respeitosa e com ciência.”
Assim, infelizmente, muitos produtores de conteúdo ignoram essa responsabilidade. O especialista alerta que, frequentemente, nos deparamos com “gente falando coisas que não têm nenhuma evidência científica, realmente nenhum nexo, não faz sentido absolutamente nenhum”.
Portanto, desconfie de soluções fáceis. Buscar a causa científica do diabetes tipo 1 em fontes confiáveis é o único caminho seguro.
O que realmente causa o diabetes tipo 1?
Diferente do que dizem os boatos sobre vermes ou bactérias bucais, o diabetes tipo 1 é uma condição autoimune complexa. Assim, o corpo não é atacado por um parasita externo; o sistema imunológico comete um erro de identificação.
Dr. Flávio explica detalhadamente como esse processo se inicia:
“O paciente tem geneticamente, já ao nascimento, uma predisposição. Nessa predisposição, esse paciente vai entrar em contato com algum fator ambiental […] e isso vai gerar uma resposta imunológica.”
Ou seja, a ciência já mapeou que não existe um único culpado. Portanto, a genética carrega a arma, mas o ambiente puxa o gatilho.
Os gatilhos ambientais
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a American Diabetes Association (ADA) confirmam que a predisposição genética interage com fatores externos. Assim, Segundo o Dr. Flávio, esses fatores ambientais podem incluir:
- Infecções virais;
- Toxinas;
- Deficiência de vitamina D;
- Estresse fisiológico.
Estudos publicados em revistas renomadas, como o Diabetes Care, corroboram que esses elementos despertam a autoimunidade, fazendo o corpo atacar a si mesmo [1].
O processo de insulinite
O ponto central para entender a causa científica do diabetes tipo 1 é a inflamação das ilhotas pancreáticas. O Dr. Flávio Pirozzi descreve esse momento crucial com clareza técnica:
“O sistema imunológico passa a reconhecer a célula beta pancreática, que é a célula que produz insulina, como sendo algo agressivo. E vai lá e provoca um processo inflamatório que a gente conhece por insulinite.”
Nesse processo, as células beta perdem a função e param de produzir insulina. Isso eleva a glicose no sangue de forma permanente. Não há parasitas envolvidos, apenas uma reação imunológica equivocada.
Por que a teoria do parasita é falsa?
A alegação de que o Eurytrema pancreaticum causa o diabetes é uma fake news antiga e requentada. Esse parasita afeta principalmente bovinos e suínos. Infecções em humanos são raríssimas e, quando ocorrem, causam problemas gastrointestinais, e não a destruição seletiva das células beta [2].
Acreditar nessas teorias pode levar ao abandono da insulinoterapia, o que é gravíssimo para quem tem a condição. O tratamento correto, baseado em evidências, salva vidas.
Como conclui o Dr. Flávio: “Essa é a informação correta e é assim que realmente funciona todo o desenvolvimento e surgimento da doença autoimune chamada diabetes mellitus tipo 1”.
Referências Bibliográficas
[1] Rewers, M., & Ludvigsson, J. (2016). Environmental risk factors for type 1 diabetes. The Lancet, 387(10035), 2340-2348. [2] American Diabetes Association. (2023). Introduction: Standards of Care in Diabetes—2023. Diabetes Care, 46(Supplement_1).
