Durante muito tempo, a sociedade enxergou a redução de estômago apenas como um procedimento estético ou focado exclusivamente na perda de peso. No entanto, a ciência avançou e revelou uma nova perspectiva. Hoje, sabemos que a relação entre cirurgia bariátrica e diabetes vai muito além da balança, tratando-se de uma intervenção metabólica poderosa.
Para esclarecer se este procedimento realmente cura o diabetes tipo 2, o jornalista Tom Bueno recebeu no “DiabetesCast” dois grandes especialistas. O debate contou com a presença do Dr. Fernando Pec, cirurgião bariátrico, e do Dr. Fernando Valente, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Diabetes. Juntos, eles desmistificaram conceitos antigos e trouxeram luz sobre o tratamento da obesidade e do diabetes.
Obesidade: uma condição crônica e complexa
Primeiramente, é fundamental compreender o cenário base. Ambos os especialistas concordam que a obesidade não é uma falha de caráter, mas sim uma doença crônica e progressiva. Segundo o Dr. Fernando Pec, entender a natureza da doença é o primeiro passo.
“As duas [obesidade e diabetes] estão classificadas como doenças crônicas e progressivas. E toda doença crônica e progressiva é incurável. Então, com a cirurgia, o que eu consigo? Ter a remissão da doença, seja parcial ou total”, explica o cirurgião.
Nesse contexto, a cirurgia bariátrica e diabetes se encontram como uma ferramenta de controle. O procedimento não visa apenas emagrecer o paciente, mas sim controlar as questões metabólicas que agridem o organismo.
A união entre cirurgião e endocrinologista
Muitas pessoas acreditam que existe uma rivalidade entre o tratamento clínico e o cirúrgico. Contudo, a entrevista prova o contrário. O trabalho multidisciplinar é essencial para o sucesso do tratamento de quem tem diabetes.
O Dr. Fernando Valente reforça que o cirurgião é um aliado. “Pacientes precisando de cirurgia e de medicamento não faltam”, afirma o endocrinologista. Ele destaca que o acompanhamento não termina na mesa de cirurgia. Pelo contrário, o endocrinologista deve preparar o paciente para o procedimento e acompanhá-lo por toda a vida pós-operatória.
Dessa forma, a equipe multidisciplinar, que inclui psicólogos, nutricionistas e cardiologistas, garante que o paciente chegue à cirurgia compensado. Operar alguém com o diabetes descontrolado, por exemplo, pode comprometer o resultado a longo prazo. Portanto, estabilizar a glicemia antes do procedimento é uma etapa de segurança inegociável.
Critérios para a realização da cirurgia
Mas afinal, quem pode fazer a cirurgia? Atualmente, os médicos seguem critérios rigorosos. Pacientes com IMC (Índice de Massa Corporal) maior que 40 possuem indicação absoluta. Além disso, aqueles com IMC entre 35 e 39,9, que apresentem comorbidades, também são candidatos.
Existe ainda uma discussão importante sobre a cirurgia metabólica para quem tem IMC entre 30 e 34,9 e diabetes tipo 2 de difícil controle. Embora as diretrizes da ANS (Agência Nacional de Saúde) ainda limitem esse acesso nos planos de saúde, a classe médica defende que a intervenção precoce pode mudar a história de quem convive com o diabetes.
Remissão versus cura do diabetes
Um dos pontos altos da conversa conduzida por Tom Bueno foi a diferenciação entre cura e remissão. O termo “cura” não se aplica a condições crônicas. O correto é falar em remissão.
Quando realizamos a cirurgia bariátrica e diabetes entra em pauta, falamos em deixar a condição “adormecida”. As alterações hormonais provocadas pela cirurgia, especialmente no método Bypass, aumentam a secreção de incretinas e melhoram a ação da insulina.
“Você tem uma mudança hormonal… esse paciente tem um aumento de secreção de insulina… e melhora da sinalização também para o sistema nervoso central”, detalha o Dr. Fernando Valente.
Isso significa que muitos pacientes saem do hospital sem precisar de insulina ou com doses drasticamente reduzidas. Contudo, isso exige vigilância constante. Se o paciente retomar velhos hábitos e ganhar peso, a condição pode “acordar” e voltar a se manifestar.
O pós-operatório e a massa muscular
Por fim, é crucial abordar o que acontece depois. A cirurgia não é o fim da linha, mas o início de uma nova fase. O Dr. Pec alerta que a restrição alimentar mecânica ocorre principalmente nos primeiros meses. Após esse período, o corpo se adapta.
Além disso, há um risco real de perda de massa magra (músculos). O Dr. Valente compara a massa muscular a uma “poupança” de saúde. Perdê-la pode diminuir o metabolismo e facilitar o reganho de peso. Portanto, a suplementação vitamínica e a prática de exercícios físicos resistidos, como a musculação, são obrigatórios para quem busca saúde e longevidade.
Resumindo, não existem milagres. A cirurgia bariátrica e diabetes formam uma dupla de combate eficaz, mas a responsabilidade do autocuidado permanece. Como bem lembrou Tom Bueno, desconfie de promessas de soluções fáceis na internet. O caminho seguro é sempre a ciência e o acompanhamento profissional.
