Amanhã, dia 11 de dezembro, a literatura esportiva ganha um reforço de peso. Nesse contexto, o engenheiro e atleta Ricardo Correia de Araujo lança um livro sobre superação no diabetes que promete desconstruir a visão romântica da alta performance. A obra, intitulada “Sabe Aquele Sonho Lá? Desiste não!”, narra a jornada de 235 km percorridos por ele na Serra da Mantiqueira, durante a Ultramaratona dos Anjos Internacional (UAI).
De fato, Ricardo convive com a condição há 36 anos e utiliza sua experiência para mostrar que limites podem ser superados. O livro sobre superação no diabetes não é apenas um relato de corrida. Pelo contrário, funciona como um manual prático de como gerenciar a glicemia em situações extremas, servindo de inspiração para quem busca qualidade de vida.
Uma narrativa sem filtros
Ao contrário de muitos relatos que focam apenas na glória da chegada, Ricardo optou pela transparência radical. Assim, na obra, ele reconstrói detalhes de 55 horas de prova, incluindo privação de sono, desgaste físico e o controle rigoroso da glicemia. Ademais, o autor reforça que a narrativa é direta e “sem romantizações”, expondo o sofrimento real e as decisões críticas tomadas sob exaustão.
Consequentemente, o objetivo deste livro sobre superação no diabetes é atuar como um manifesto de esperança. Ou seja, ele busca provar que é possível continuar sonhando grande, mesmo convivendo com uma condição crônica que exige monitoramento 24 horas por dia.
Engenharia aplicada ao corpo
Ricardo é engenheiro eletricista e, portanto, aplica essa lógica exata ao tratamento. Para ele, o diabetes não é uma barreira, mas sim um processo que precisa de controle. Nesse sentido, ele afirma que encara o gerenciamento da glicose como “um controle de processo” e que o monitoramento contínuo funciona como “um velocímetro a mais que as outras pessoas não têm”.
Por outro lado, durante a preparação e a prova, ele não teve falhas nos equipamentos de monitoramento e controle. Isso ocorreu porque ele tomou o cuidado de trocar os cateteres, reservatórios e sensores na véspera, garantindo que a tecnologia fosse uma aliada constante. Essa mentalidade analítica é, sem dúvida, um dos pilares abordados na publicação.
Bastidores reais: seringa, coca-cola normal e apoio da equipe
Entretanto, um dos trechos mais tensos que o leitor encontrará envolve um “Plano B”. Devido à ansiedade da largada e ao consumo excessivo de carboidratos, ele iniciou a prova com a glicemia alta. Posteriormente, no quilômetro 200, suspeitando de um problema na bomba de insulina, ele recorreu a uma seringa manual que levava no bolso.
Imediatamente, a experiência falou mais alto. Após aplicar a insulina manual para corrigir a hiperglicemia, ele precisou evitar uma queda brusca. Por isso, recusou a bebida zero oferecida pelo apoio e pediu Coca-Cola normal. Ele explica que, naquele momento, precisava do açúcar para “segurar a queda” e equilibrar o organismo. Finalmente, essa manobra técnica salvou sua prova.
Aliás, a relação de Ricardo com as pessoas que dão suporte a ele nas provas é bem próxima. O casal Lais e Marcelo, sempre presentes ao lado do atleta, fez uma surpresa para Ricardo: “Eles me contaram na semana da prova que estavam grávidos. O Murilo (filho do casal) se tornou ultramaratonista antes do ultrassom.“
Nutrição estratégica
Além da insulina, a comida foi fundamental. Percorrer 235 km exige combustível, visto que géis de carboidrato não bastam. Dessa maneira, a estratégia incluiu “comida de verdade” para evitar enjoos, como macarrão alho e óleo com atum, paçoca e frutas. Ele destaca que, nas grandes refeições, o prato de macarrão caía “como um manjar”.
Um recado para os recém-diagnosticados
Por fim, Ricardo deixa uma reflexão poderosa, especialmente para quem acabou de descobrir a condição. Ele reforça, com veemência, que o diagnóstico não deve ser encarado como um fator limitante. Segundo o atleta, “o diabetes não nos impede de nada, Com prudência a gente consegue contornar qualquer situação”.
No entanto, ele ressalta que a liberdade exige responsabilidade. Portanto, é lógico que precisamos ter prudência no dia a dia. Isso inclui acompanhamento médico, monitorar a glicemia antes de qualquer atividade e sempre carregar carboidratos consigo. Dessa forma, ele finaliza com uma metáfora positiva sobre o monitoramento constante. Ricardo costuma brincar que quem tem diabetes possui uma vantagem técnica, pois “a gente tem um velocímetro a mais que as outras pessoas não têm”.
Lançamento do livro em São Paulo
Para quem deseja conhecer essas histórias de perto, o evento de lançamento já tem data marcada.
- Data: 11 de dezembro (quinta-feira)
- Horário: Das 19h às 21h30
- Local: Livraria da Vila, no Shopping Pátio Paulista (Rua Treze de Maio, 1947, São Paulo – SP)
Confira a entrevista completa com o Ricardo
Confira abaixo a íntegra das perguntas realizadas pelo Um Diabético e as respostas enviadas pelo ultramaratonista Ricardo Araujo:
1. Foram 55 horas de prova, você enfrentou falhas técnicas em equipamentos médicos? Como lidou com isso?
Ricardo: Na verdade, durante a prova, eu não tive nenhum contratempo na monitoração. Tomei o cuidado de na véspera trocar o meu sensor para que ele tivesse a vida útil grande. Então, durante a prova, eu não tive nenhum contratempo. Todos os momentos em que precisei monitorar, eu estava com o glicosímetro e o sensor me guiou o tempo inteiro.
2. Percorrer 235 km exige reposição calórica. Como foi sua estratégia de alimentação?
Ricardo: Durante todos os anos de experiência, testei várias possibilidades. Durante a prova, o que faço é repor a cada 30 ou 40 minutos uns 20 a 30g de carboidratos quando a intensidade é alta (ex. géis de carboidratos, frutas, bananinha, isotônicos, pão com geleia, etc.). Como a jornada é longa, nas grandes refeições, eu me preparei. Na véspera, cozinhamos uma grande quantidade de macarrão alho e óleo com atum. Isso caía como um manjar
3. De que maneira a experiência de 36 anos com diabetes ajudou a identificar sinais durante a exaustão?
Ricardo: A hipoglicemia no meu caso é muito perceptível. Eu costumo dizer que é como se sentir bêbado sem beber. Tive uma queda na prova, mas foi mais por questão de extremo cansaço, não foi relacionado à hipoglicemia. Parei na próxima cidade, dormi por uma hora, mas o controle glicêmico estava perfeito.
4. Qual foi o momento mais tenso da prova onde o gerenciamento do diabetes pesou?
Ricardo: O ano passado acordei com a glicemia em 100, mas comi muito pão com mel ( muito tempo antes da largada) e larguei acima de 250, (tive medo de corrigir e ter hipoglicemia, passei muitas horas com hipoglicemia o que me levou a fadiga extrema, acabei desistindo).Esse ano, cometi o mesmo erro. Larguei com a glicemia subindo (porém tive a decisão acertada de corrigir com pequenas frações a cada intervalo de 30min, a glicemia logo cedeu e estabilizou). Já No km 200, estava com hiperglicemia há horas e extremamente fadigado. Tomei a decisão de usar a seringa (cateter podia estar entupido). Corrigi com 8 unidades (tomei um isotônico com 40g de carboidratos) e (carreguei Coca-Cola normal para segurar a queda devido a grande quantidade de insulina que injetei). Deu super certo. Foi a grande tomada de decisão da prova.
5. Como sua equipe estava preparada para lidar com emergências?
Ricardo: Meus apoios sempre foram anjos da guarda. Esse ano, quando pedi a Coca-Cola normal no momento crítico, meu apoio (Marcelo) tentou me dar a Zero, pois sabia que minha glicemia estava alta. Eu tive que explicar: “Não, eu quero a normal com açúcar porque acabei de corrigir com muita insulina”. Ele entendeu e seguimos.
6. Você encara o controle do diabetes como um cálculo exato de engenharia?
Ricardo: Sim, como engenheiro, faço cálculo o tempo todo. Encaro como um controle de processo. Tenho um setpoint (alvo) definido e trabalho com ele. Faço as contas de quanto comer de carboidrato a cada 30 minutos. Se a glicemia tende a subir, faço uma microdose de insulina. É um equilíbrio entre controle de processo e controle mental.
7. Qual a mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico?
Ricardo: O diabetes não nos impede de fazer absolutamente nada na vida. Tenho diabetes há 36 anos e nunca me impediu de nada. É lógico que precisamos ter prudência: monitorar, saber como está a glicemia antes da atividade e ter carboidratos consigo. Costumo brincar que a gente tem um velocímetro a mais que as outras pessoas não têm.