No Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta-feira (20), um levantamento realizado pelo Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) expõe, em dados, como o racismo estrutural continua determinando a saúde da população negra no país.
O boletim especial, divulgado pela equipe de pesquisadores que acompanha mais de 15 mil brasileiros há 15 anos, mostra que pretos e pardos enfrentam piores indicadores de saúde, menor acesso a oportunidades e maior risco de morte. Desigualdades que não podem ser explicadas pela genética, mas sim pelas condições sociais produzidas pelo racismo.
Diabetes em pessoas negras
Já no início do estudo, a prevalência de diabetes entre pessoas pretas chegava a 27,7%, a mais alta entre todos os grupos analisados. Nos quatro anos seguintes, pretos e pardos continuaram registrando mais casos novos da doença do que brancos.

Situação semelhante foi encontrada na hipertensão, um dos principais fatores de risco para infartos e AVC. Quase metade dos participantes pretos tinham pressão alta na primeira avaliação. Mesmo com o tratamento, o controle da doença também era pior entre pretos e pardos, aumentando o risco de complicações graves.
A obesidade, condição diretamente ligada ao risco de diabetes, também afeta mais os grupos negros. A doença renal crônica aparece com maior frequência em pardos e pretos. Na saúde mental, as mulheres pretas foram o grupo com maior prevalência de ansiedade, fobias e sintomas depressivos.
Os pesquisadores destacam que essas diferenças não são fruto de características biológicas. O ELSA-Brasil deixa claro: raça/cor funciona como um marcador social do racismo, refletindo condições desiguais ao longo da vida.
Escolas de menor qualidade, menor escolaridade dos pais, salários mais baixos, moradias em áreas com infraestrutura precária e maior exposição à violência e à discriminação compõem um ciclo que impacta diretamente a saúde.
O estudo também mostra que pretos e pardos vivem com mais frequência em áreas altamente segregadas economicamente, como bairros onde predominam famílias com renda entre zero e três salários mínimos. Morar nesses locais aumenta em 26% o risco de hipertensão e em 50% o risco de diabetes.
Os números do ELSA-Brasil reforçam que o enfrentamento ao racismo não é apenas uma pauta de direitos humanos, mas uma questão urgente de saúde pública. As desigualdades reveladas pelo estudo atravessam gerações, se acumulam no corpo e nas condições de vida, e mostram que a população negra continua pagando o preço de um país que ainda não enfrentou plenamente o seu passado e o seu presente de desigualdades raciais.