Quando a glicose sobe, o primeiro impulso de quem tem diabetes é, frequentemente, culpar o pãozinho ou o carboidrato do almoço. Embora a alimentação seja um pilar crucial, ela não é a única responsável. Na verdade, existem 42 fatores que influenciam a glicose, e muitos deles passam despercebidos no dia a dia. Para discutir esse tema complexo, o jornalista Tom Bueno recebeu os endocrinologistas Dra. Denise Franco e Dr. Ricardo de Rienzo no DiabetesCast. Os especialistas explicaram por que olhar apenas para o prato é um erro. “Quando a gente vê uma glicemia subindo, nem tudo é o carboidrato”, alerta a Dra. Franco.
Os 9 fatores ligados à alimentação
É natural pensar primeiro na comida. “A primeira coisa, quando você recebe o diagnóstico, você fala assim, o que é que eu vou comer agora?”, contextualiza a Dra. Denise Franco. No entanto, mesmo dentro desse grupo, os fatores vão além da contagem de carboidratos. Os especialistas listam 9 elementos alimentares, incluindo: a qualidade do carboidrato (simples ou complexo), a ingestão de gorduras e proteínas (que podem atrasar a subida), o consumo de álcool, o nível de hidratação e até a cafeína. Além disso, o Dr. Ricardo de Rienzo destaca a importância da microbiota intestinal, a “flora intestinal”, que interfere na absorção e no metabolismo. Contudo, o Dr. Rienzo faz uma provocação importante: “Se a gente for olhar, são nove fatores que interferem no quesito comida, ou seja, 33 não estão relacionados à alimentação.”
Medicação e atividade física: pilares com variáveis
O segundo grupo de fatores envolve as medicações. Para quem usa insulina, a dose, o horário da aplicação e o tempo de ação são cruciais. A Dra. Franco lembra que outras medicações podem causar estragos, especialmente os corticoides. “O uso do corticoide pode levar ao que a gente chama de diabetes medicamentoso”, explica ela, ressaltando que, embora às vezes necessário, seu uso exige cuidado e acompanhamento. O Dr. Rienzo complementa que até mesmo antidepressivos, comuns em pessoas com condições crônicas, podem alterar a glicemia e, portanto, exigir reajustes no tratamento.
A atividade física é outro pilar fundamental. Contudo, seu efeito não é único. O Dr. Rienzo explica que o tipo, a intensidade e o horário do exercício mudam tudo. “Exercícios de baixa intensidade, a tendência de hipoglicemia é muito maior”, diz ele. “Da mesma maneira que você vai fazer uma aula de crossfit… com adrenalina, você pode ter uma hiperglicemia.” O apresentador Tom Bueno usou seu próprio exemplo, relatando como treinar de manhã estabiliza seu dia, enquanto treinar à tarde exige mais insulina de manhã e pode causar hipoglicemias noturnas.
Fatores biológicos: o que acontece dentro do corpo
Este é talvez o grupo mais complexo e menos óbvio de fatores que influenciam a glicose. A qualidade do sono é um ponto de partida. “A gente sabe que a qualidade do sono interfere bastante em toda a parte metabólica”, afirma o Dr. Rienzo. Uma noite mal dormida, portanto, pode significar um dia de glicemias mais altas e maior resistência à insulina.
Além do sono, entram na lista o estresse, doenças infecciosas (que podem causar hiper ou hipoglicemia) e a lipodistrofia (o “carocinho” da aplicação errada de insulina). Fatores hormonais também são determinantes. Nas mulheres, o ciclo menstrual pode exigir ajustes na insulina: “Normalmente você tem uma hiperglicemia no pré-menstrual, e na hora que menstrua… a gente aumenta a chance de hipoglicemia”, detalha a Dra. Franco. O mesmo vale para a puberdade, onde os hormônios do crescimento e o “estirão” aumentam drasticamente a necessidade de insulina, algo que os pais devem acompanhar de perto com o médico.
O ambiente e as decisões
O ambiente ao redor também impacta o controle. A Dra. Franco lembra de algo básico, mas vital: o tempo de uso da insulina após aberta. A maioria dura cerca de 28 a 30 dias; após isso, “vai diminuir a ação”. Temperaturas extremas (calor ou frio), queimaduras de sol e até a altitude podem alterar tanto o funcionamento da insulina quanto a leitura dos glicosímetros ou sensores.
Por fim, o comportamento e as decisões fecham a lista. Isso inclui desde a pressão familiar ( “ah, não pode comer isso”, exemplifica o Dr. Rienzo) até a ansiedade gerada pelo monitoramento excessivo. Tom Bueno mencionou o erro comum de aplicar insulina de correção sem esperar o tempo total de ação da dose anterior, o que pode “empilhar” a insulina e gerar hipoglicemia horas depois.
A conclusão: o fator mais importante
Diante de tantos fatores que influenciam a glicose, a mensagem final dos especialistas é de aprendizado, e não de culpa. Para o Dr. Ricardo de Rienzo, o fator mais importante, que une todos os outros, é o autocuidado. “Eu acho que no momento em que você aprende a se cuidar, você aprende todos esses fatores”, resume. A Dra. Denise Franco reforça que o controle da glicemia é um aprendizado diário: “A glicemia subiu ou a glicemia caiu, o mais importante é saber o que eu tenho que fazer naquele momento para a gente evitar que eu tenha aquilo lá de novo. É um aprendizado.”
