Cientistas descobriram porque o diabetes tipo 1 em crianças pequenas é frequentemente mais severo e agressivo. A condição, que resulta do ataque do sistema imunológico às células produtoras de insulina no pâncreas, apresenta-se de forma diferente nos muito jovens. Um novo estudo revela que o pâncreas ainda está em desenvolvimento, particularmente antes dos sete anos de idade. Consequentemente, esta fase de maturação torna o órgão muito mais vulnerável aos danos, o que ajuda a explicar a rápida progressão da condição nessa faixa etária.
O pâncreas em desenvolvimento é o alvo
A nova pesquisa, liderada pela Universidade de Exeter, mostra que o mistério reside no desenvolvimento das células beta no pâncreas. Estas são as células vitais responsáveis por detectar o açúcar no sangue e liberar o hormônio insulina após comermos.
O estudo descobriu que, em crianças pequenas, essas células beta existem principalmente como pequenos aglomerados ou até mesmo como células individuais. No entanto, à medida que envelhecemos, elas crescem em número e amadurecem, formando grupos maiores e mais robustos, conhecidos como Ilhotas de Langerhans.
Quando o sistema imunológico se volta contra o próprio corpo, ele ataca essas células beta. Nos mais jovens, os pequenos aglomerados são eliminados e destruídos rapidamente, antes mesmo de terem a chance de amadurecer. Em contrapartida, em adolescentes ou adultos, as ilhotas maiores são mais duráveis. Embora também sejam atacadas, elas conseguem sobreviver por mais tempo, permitindo que a pessoa ainda produza baixos níveis de insulina, o que reduz a severidade da condição no diagnóstico.
A história de Gracie: o impacto do diagnóstico precoce
Gracie, de Merseyside (Reino Unido), adoeceu subitamente no Halloween de 2018, com apenas um ano de idade. O que começou como um leve resfriado, escalou rapidamente. “Ela passou de uma criança de um ano muito feliz, que ia para a creche e dançava e cantava, para quase morrer em menos de 48 horas”, conta o pai, Gareth.
O diagnóstico mudou tudo. A família precisou se adaptar rapidamente, monitorando tudo o que Gracie comia ou bebia, verificando constantemente os níveis de açúcar no sangue e administrando insulina. Hoje, Gracie usa um monitor de glicose e uma bomba de insulina e, segundo o pai, está “dominando o diabetes”. A experiência dela ilustra vividamente porque entender o diabetes tipo 1 em crianças é tão crucial.

Novas esperanças e tratamentos no horizonte
Esta descoberta não é apenas acadêmica; ela muda fundamentalmente o panorama para futuros tratamentos. A Dra. Sarah Richardson, da Universidade de Exeter, em entrevista à BBC, disse que “o futuro é muito mais brilhante” para as crianças que estão sendo diagnosticadas agora.
A principal esperança reside em novas imunoterapias. Por exemplo, o medicamento Teplizumab, que já foi licenciado no Reino Unido (embora ainda não esteja disponível no sistema público de saúde), pode ativamente impedir o sistema imunológico de atacar as células beta.
A ideia é usar esses novos medicamentos para “ganhar tempo”. Ao atrasar o ataque imunológico, os médicos esperam permitir que o pâncreas da criança continue a amadurecer. Isso tornaria as células beta mais resistentes e robustas, potencialmente atrasando o início da condição por anos ou, pelo menos, diminuindo sua gravidade inicial.
O que dizem os especialistas
A pesquisa faz parte do “Type 1 Diabetes Grand Challenge”, uma colaboração de peso entre a Steve Morgan Foundation, a Diabetes UK e a Breakthrough T1D.
Rachel Connor, diretora de parcerias de pesquisa da Breakthrough T1D, destacou a importância do achado: “Este estudo nos dá uma peça perdida do quebra-cabeça, explicando por que o diabetes tipo 1 progride muito mais rápido em crianças do que em adultos.”
Da mesma forma, a Dra. Elizabeth Robertson, diretora de pesquisa da Diabetes UK, afirmou que a descoberta “abre a porta para o desenvolvimento de novas imunoterapias… potencialmente dando às crianças mais anos preciosos sem terapia com insulina e, um dia, prevenindo a necessidade dela inteiramente.” Compreender a fundo o diabetes tipo 1 em crianças é o primeiro passo para, um dia, talvez, conseguir preveni-lo totalmente.
Fontes do estudo
O estudo original foi publicado na revista científica Science Advances e pode ser acessado através das seguintes informações:
Instituições envolvidas: Universidade de Exeter (Líder), Diabetes UK, Breakthrough T1D (anteriormente JDRF) e a Steve Morgan Foundation (como parte do Type 1 Diabetes Grand Challenge).
Estudo: “Neonatal and pediatric beta cells are developing, phenotypically distinct, and uniquely vulnerable to immune attack”.
Periódico: Science Advances (Vol 10, Issue 44)
DOI (Link): 10.1126/sciadv.ado9934
As entrevistas reproduzidas nesta matéria foram originalmente concedidas à BBC de Londres.
