A crescente aprovação de medicamentos à base de semaglutida para obesidade, como o Wegovy, levantou uma dúvida crucial: e o paciente que, além da obesidade, também tem o diabetes tipo 2? Ele precisaria usar duas medicações? Durante um workshop promovido pela Novo Nordisk, o Portal Umdiabético levou essa questão à farmacêutica. A resposta, fornecida por especialistas da empresa, foi direta: na maioria dos casos, o medicamento para obesidade trata o diabetes tipo 2 simultaneamente.
Entendendo a dupla ação da semaglutida
A dúvida é pertinente, pois medicamentos como Ozempic (semaglutida) foram inicialmente aprovados para o diabetes, enquanto o Wegovy (semaglutida 2,4 mg) foi aprovado especificamente para obesidade, ambos da Novo Nordisk. Marília Fonseca, diretora da área médica da empresa no Brasil, explicou que a confusão é comum, mas a resposta está na potência da dose.
“No tratamento da obesidade com Wegovy (semaglutida 2,4 mg), o paciente já obtém o benefício do controle glicêmico e da redução da hemoglobina glicada”, afirmou Marília. “A glicemia de jejum e a pós-prandial (…) também são controladas. Ou seja, com a semaglutida na dose para tratamento da obesidade, já conseguimos tratar as duas condições ao mesmo tempo.”
Portanto, a necessidade de duas bulas distintas se deve, principalmente, a programas de estudos e aprovações regulatórias diferentes, não a uma falta de eficácia da dose maior para ambas as condições.
A potência das doses maiores no controle glicêmico
Júlia Cabral, gerente da área médica da Novo Nordisk no Brasil, reforçou o ponto, citando estudos clínicos robustos. Segundo ela, o medicamento para obesidade trata o diabetes de forma muito eficaz, justamente por usar uma dosagem superior de semaglutida.
“…se tratarmos o paciente com diabetes com Wegovy 2.4 mg, temos os estudos, como o STEP 2, que mostram uma redução da hemoglobina glicada de 1.8% a 2%”, explicou Júlia. Ela acrescentou que a futura semaglutida oral de 25mg (avaliada no estudo PIONEER PLUS) também alcançou reduções potentes de cerca de 2%. Consequentemente, as doses maiores para obesidade são preferenciais nesses casos, pois “terão mais potência na redução da glicemia”.
Obesidade e diabetes: um contínuo de saúde
A intervenção do Portal Umdiabético durante o workshop destacou o que as especialistas chamaram de “insight muito legal”: o paciente não tem condições separadas, mas sim um contínuo. Hoje, a obesidade é compreendida como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
“Então, se tratamos a obesidade, estamos, ao mesmo tempo, tratando o diabetes tipo 2, caso o paciente o tenha. Se ele tiver pré-diabetes, estamos tratando o pré-diabetes, ou seja, tratando toda a fisiopatologia do desenvolvimento do diabetes tipo 2”, disse Júlia Cabral. A abordagem, portanto, foca na raiz fisiopatológica do problema. O excesso de peso leva à inflamação crônica e à síndrome metabólica, que por sua vez aumenta o risco de pressão alta e do diabetes.
O impacto clínico: “não precisa usar os dois”
A conclusão para quem tem diabetes tipo 2 e obesidade é clara: “ele não precisa usar Ozempic e Wegovy juntos. Ele pode usar apenas o Wegovy”. As especialistas destacaram que uma redução de quase 2% na hemoglobina glicada é considerada uma terapia de “alta potência” para o controle glicêmico.
Esse controle é vital. Elas lembraram que estudos clássicos, como o UKPDS, já comprovaram que a cada 1% de redução na hemoglobina glicada, há um impacto significativo na redução das complicações micro e macrovasculares (em pequenos e grandes vasos), associadas à progressão da condição. Em resumo, o medicamento para obesidade trata o diabetes e, ao mesmo tempo, ajuda a prevenir suas complicações.