Dr. Tadej Battelino, referência mundial em tecnologia aplicada ao diabetes, explica por que a qualidade e a acurácia dos sensores de glicose são fundamentais para garantir segurança e confiança no tratamento.
Os sensores de glicose mudaram a forma como as pessoas com diabetes cuidam da saúde. A tecnologia do monitoramento contínuo de glicose (CGM) trouxe mais liberdade, praticidade e informações em tempo real, facilitando o controle e a tomada de decisões.
Mas, junto com o avanço, surge também um alerta: nem todos os sensores seguem os mesmos padrões de qualidade e segurança e isso pode fazer diferença nos resultados.
Quem explica é o endocrinologista Tadej Battelino, referência mundial em tecnologia aplicada ao tratamento do diabetes, que veio ao Brasil à convite da Abbott. Em entrevista exclusiva ao jornalista Tom Bueno, fundador do Um Diabético, o especialista reforçou que é essencial seguir critérios internacionais de acurácia e precisão, como os definidos pelo FDA (órgão regulador dos Estados Unidos), para garantir o uso seguro e eficaz dos sensores. Dr. Battelino é um dos autores da recente publicação sobre critérios mínimos de desempenho e segurança para aprovação de CGMs na Europa.
“O desempenho clínico de um dispositivo como CGM é uma questão de segurança. Se o sensor não é confiável, o risco é de decisões erradas sobre o tratamento”, afirmou o Dr. Battelino.
A entrevista foi concedida logo após uma aula do professor durante o XXV Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes, realizado na última semana no Rio de Janeiro.
Quem é Tadej Battelino
Tadej Battelino é médico endocrinologista e professor de Pediatria na Universidade de Ljubljana, na Eslovênia. Chefe do Departamento de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo Pediátrico do University Medical Center Ljubljana; é considerado uma das maiores autoridades mundiais em tecnologia aplicada ao tratamento do diabetes.
Com mais de 40 anos de experiência em pesquisa clínica, o Dr. Battelino foi um dos pioneiros na definição do consenso internacional de tempo no alvo (Time in Range) e atua como coorganizador do ATTD (Advanced Technologies & Treatments for Diabetes), um dos eventos mais relevantes em tecnologia e tratamento do diabetes no mundo. É autor de centenas de publicações científicas e membro ativo da ISPAD, EASD e IDF.
Entrevista completa
Tom Bueno: Professor Battelino, o senhor é reconhecido mundialmente por suas contribuições à pesquisa e à tecnologia em diabetes. Como o conceito de Time in Range ajudou a mudar o tratamento da doença?
Dr. Tadej Battelino: Quando comecei a trabalhar com pessoas com diabetes, percebi que muitas vezes elas não entendiam o que esperávamos delas. A hemoglobina glicada, por exemplo, é um indicador limitado, mostra uma média, mas não reflete as variações diárias da glicose. Com o surgimento dos sensores de glicose, passamos a ter uma visão completa. Isso nos permitiu explicar de forma simples o que é manter a glicose em um intervalo seguro. Criamos, então, os primeiros “tempos no alvo”, e eles só deram certo porque as pessoas com diabetes os aceitaram. Pela primeira vez, conseguimos nos comunicar de maneira clara e eficaz.
Tom Bueno: Hoje há muitos sensores de glicose disponíveis. O que deve ser considerado ao escolher um sistema de monitoramento contínuo?
Dr. Tadej Battelino: O ponto mais importante é a qualidade e a segurança. Nos Estados Unidos, o FDA definiu padrões rigorosos para os sensores, os chamados iCGM (Integrated Continuous Glucose Monitoring – iCGM). Eles garantem acurácia em diferentes níveis de glicose e em vários tipos de pessoas, inclusive com variações rápidas, como ocorre no diabetes tipo 1.
Na Europa, o processo ainda é mais flexível, com o selo CE emitido por empresas privadas. Isso é preocupante, porque alguns dispositivos chegam ao mercado sem testes completos de segurança. Já houve casos de problemas de saúde relacionados a sensores de glicose que não seguem o padrão iCGM. Por isso, é essencial que países e autoridades de saúde adotem critérios técnicos claros para proteger os pacientes.
Tom Bueno: Qual é a diferença entre CGM e iCGM?
Dr. Tadej Battelino: O CGM é o monitoramento contínuo de glicose, a tecnologia em si. Já o iCGM é uma categoria criada pelo FDA que estabelece padrões rigorosos de precisão e segurança. Quando um sensor é aprovado pelo FDA e passa por uma série de requisitos especiais, isso significa que ele cumpre o padrão iCGM. Esse selo garante confiança e segurança aos pacientes e aos profissionais.
Tom Bueno: Por que é tão importante que os sensores sigam padrões internacionais como o iCGM?
Dr. Tadej Battelino: Porque a precisão é uma questão de segurança. Hoje, muitas pessoas usam sistemas automatizados de infusão de insulina, que ajustam as doses com base nos dados do sensor. Se a leitura for imprecisa, o sistema pode liberar insulina a mais ou a menos, com riscos graves. Mesmo para quem faz os ajustes manualmente, uma leitura errada pode levar a decisões equivocadas. Isso vale tanto para quem vive com diabetes tipo 1 quanto tipo 2. Um sensor impreciso pode resultar em tratamento desnecessário ou em falta de tratamento quando há necessidade. A segurança do paciente depende da confiabilidade da informação.
Tom Bueno: Diversos estudos e diretrizes já recomendam o uso do CGM também para pessoas com diabetes tipo 2. O que explica esse avanço?
Dr. Tadej Battelino: No diabetes tipo 1, o CGM e os sistemas automatizados de infusão são padrões de cuidado;isso já está consolidado em todas as diretrizes internacionais. Para o tipo 2, os benefícios também são claros, especialmente para quem usa insulina. O sensor ajuda a reduzir hipoglicemias e melhora o controle glicêmico.
Mas há algo além dos números: ele traz qualidade de vida. As pessoas sentem mais segurança e autonomia, e as famílias vivem com menos ansiedade. Em crianças pequenas e pessoas idosas, o CGM é ainda mais importante, porque permite um acompanhamento constante.
Tom Bueno: O senhor acredita que a inteligência artificial será o próximo passo da tecnologia em diabetes?
Dr. Tadej Battelino: Sim, sem dúvida. A inteligência artificial será parte de todos os sistemas modernos. Ela permitirá integrar informações como rotina, localização, alimentação e outros marcadores fisiológicos. Já existem estudos com gêmeos digitais, modelos que simulam o comportamento de uma pessoa real para prever reações e ajustar o tratamento.
Além disso, novos sensores estão surgindo, como os que medem também as cetonas de maneira contínua, que serão muito úteis para o diabetes tipo 1. Também veremos a combinação de sensores com terapias como os agonistas de GLP-1, que oferecem benefícios cardiovasculares e renais. É uma nova era de automação e personalização.
Tom Bueno: Mesmo com tanta tecnologia, a educação continua sendo essencial. Como preparar melhor pacientes e profissionais de saúde?
Dr. Tadej Battelino: A educação precisa ser individualizada. Nem todo mundo gosta de aprender da mesma forma. Às vezes, os profissionais de saúde presumem que as pessoas querem ouvir o que ensinamos e não é sempre assim. É fundamental adaptar a comunicação.
Além disso, hoje muitas pessoas com diabetes já chegam ao consultório muito bem-informadas. Em muitos casos, são os próprios profissionais que precisam se atualizar para dialogar melhor e ajudar de forma mais eficaz.
Tom Bueno: Que mensagem o senhor deixaria para quem vive com diabetes e quer aproveitar melhor as novas tecnologias?
Tadej Battelino: O mais importante é fazer as pazes com a tecnologia. Mesmo quando o resultado não é bom, ela está mostrando a verdade e só com a verdade podemos tomar boas decisões. Encare o sensor como um amigo que diz o que realmente está acontecendo.
E mantenha a glicose o mais próxima possível do alvo. A hiperglicemia é perigosa e, agora, temos meios melhores para controlá-la. Com o CGM e os sistemas automatizados, isso se torna cada vez mais possível.