Para muitas pessoas com diabetes, especialmente as que usam insulina como o jornalista Tom Bueno (@umdiabetico), o cenário é assustador: você faz um exercício intenso, mede a glicose esperando uma queda, e o sensor aponta para cima. A primeira reação é o pânico, mas calma. No DiabetesCast, o educador físico William Komatsu explicou por que o exercício sobe a glicose e porque isso não é, necessariamente, um problema.
Esse fenômeno é comum em atividades de alta intensidade, como um treino de força pesado, um “tiro” na corrida ou uma aula de crossfit. Entender o motivo é o primeiro passo para perder o medo.
Por que o exercício sobe a glicose?
Quando o corpo é submetido a um esforço muito intenso, ele entende que precisa de energia rápida. Isso ativa os chamados “hormônios contrarreguladores” (como adrenalina e cortisol). Esses hormônios sinalizam para o fígado liberar o glicogênio estocado, jogando uma carga de glicose no sangue para abastecer os músculos.
“Eu lembro que quando nós nos conhecemos… você falou assim, ‘nossa, mas não sabia que o exercício sobe a glicose’. Que é justamente isso, essa intensidade maior pode subir”, relembrou William Komatsu durante o podcast. Portanto, essa subida não é um sinal de que o exercício “fez mal”, mas sim uma resposta fisiológica natural ao esforço extremo.
Fique calmo: essa hiperglicemia é diferente
O maior erro, segundo Komatsu, é se desesperar e aplicar uma dose de insulina corretiva imediatamente. Isso pode levar a uma “montanha-russa” glicêmica perigosa.
“E aí o pessoal se apavora, toma insulina, cai demais, aí fica aquela, sobe e desce, aquela coisa maluca”, alerta o especialista. Ele deixa um conselho de ouro: “Uma vez que você tem uma hiperglicemia causada pelo exercício, ela é muito mais fácil de ser controlada do que uma hiperglicemia causada pela alimentação”.
O que fazer, então? Na maioria dos casos, nada. “Fez uma hiperglicemia por causa do exercício, tudo bem. Aguarde que ele vai diminuir”, tranquiliza Komatsu. O próprio corpo, ao se recuperar, utilizará essa glicose.
A glicemia inicial também influencia
Outro fator que pode fazer com que o exercício sobe a glicose (ou, pelo menos, não a deixe cair) é começar a atividade já com a glicemia elevada. Komatsu explica que, fisiologicamente, se você está com hiperglicemia, o corpo pode ativar uma via metabólica diferente (via mTOR) que não é a principal para a captação de glicose pelo músculo (via AMPK).
Assim, isso tudo mostra como o monitoramento, possibilitado pelos sensores, é crucial. Ele permite entender essas nuances e, como disse Tom Bueno, “enxergar o invisível”, dando mais segurança para treinar.
O outro lado: o cardio intenso e o risco de hipoglicemia
Se os picos de intensidade podem elevar a glicose, os exercícios aeróbicos contínuos e intensos costumam ter o efeito oposto: uma queda acentuada. Isso reforça a tese dos especialistas de que cada modalidade e intensidade impacta o corpo de forma diferente.
A enfermeira Rayanne Costa, que tem diabetes tipo 1, compartilhou recentemente em suas redes sociais um experimento pessoal sobre o impacto do spinning. O vídeo mostra como a aula afetou seus níveis de glicose. Rayanne começou o treino com a glicemia alta, mas optou por não aplicar insulina para observar a reação do corpo.
“Eu queria testar como é que ficaria a minha glicemia até o final, até mesmo porque é um treino de cardio muito intenso”, explicou ela no vídeo.
O resultado após 50 minutos de aula foi surpreendente: a glicose despencou para 65 mg/dL, um nível de hipoglicemia. Ela precisou corrigir a queda com glicose instantânea. O caso de Rayanne ilustra perfeitamente o que Komatsu havia mencionado no podcast: “o aeróbio tende a ter uma queda mais brusca”. Isso prova que o exercício e o diabetes exigem autoconhecimento e monitoramento constante.
