Uma nova esperança para quem enfrenta as graves complicações do “pé diabético” surge diretamente da academia brasileira. O Projeto Rapha: inovação brasileira vinda da Universidade de Brasília (UnB), propõe uma terapia revolucionária. A saber, ela associa o poder cicatrizante do látex natural a um equipamento portátil de fototerapia com LED. Esta abordagem, atualmente em fase de ensaio clínico, promete não apenas acelerar a cura de feridas complexas, mas também permitir que o paciente realize parte do tratamento no conforto de casa, reduzindo idas ao hospital.
A origem da ideia
Tudo começou muito antes do kit portátil se tornar realidade. A jornada do projeto Rapha (que significa “curar” em hebraico) iniciou em 2008, impulsionada pela pesquisa de doutorado da professora Suélia Rodrigues Fleury Rosa. Ela, que hoje coordena o projeto na Faculdade UnB Gama e possui pós-doutorado pelo MIT, investigou a fundo as propriedades e aplicações do biomaterial látex.
Posteriormente, em 2013, a pesquisa evoluiu com a tese de doutorado de Maria do Carmo dos Reis. Foi ela quem, pela primeira vez, propôs o sistema combinando o látex com emissores de luz LED para tratar o pé de quem tem diabetes. Os testes iniciais com pacientes no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) já mostravam melhorias claras na cicatrização.
Finalmente, em 2015, a engenheira eletrônica Yasmin Carneiro Lobo Macedo, gerente do projeto, aprimorou o sistema em seu trabalho de conclusão de curso. Ela não só melhorou o equipamento móvel, mas também formulou protocolos para a produção das lâminas de látex em escala comercial, reunindo uma equipe multidisciplinar para impulsionar a iniciativa.
Como funciona a terapia inovadora?
O chamado pé diabético é uma complicação séria, ocorrendo quando feridas ou infecções nos pés evoluem para úlceras. Infelizmente, estima-se que até 25% das pessoas com diabetes desenvolverão essas úlceras em algum momento. Se não tratadas adequadamente, elas podem levar a amputações.
O projeto Rapha inova ao unir duas frentes. Primeiro, utiliza a fototerapia (terapia por luz), que tem efeitos analgésicos, anti-inflamatórios e cicatrizantes. No entanto, em vez do laser caro, o projeto usa LED, reduzindo drasticamente o custo, mas mantendo uma ação potente.
Segundo, ele usa a lâmina de látex. “A lâmina de látex também é de baixo custo em relação aos protocolos que são adotados atualmente no SUS“, afirma a engenheira eletrônica Yasmin Carneiro Lobo Macedo.
O paciente recebe um kit com o dispositivo LED, as lâminas e itens básicos (soro, gaze). Em casa, ele higieniza a lesão, aplica a lâmina de látex e, em seguida, posiciona o equipamento LED sobre ela. O dispositivo é ligado e funciona automaticamente por 35 minutos, emitindo um alarme ao final. A lâmina, por ser biodegradável e antibactericida, pode ser descartada em lixo comum.
O objetivo de “desospitalizar” o paciente
Um dos maiores diferenciais do Projeto Rapha é a autonomia dada ao paciente. A professora Suélia Fleury explica que o tratamento convencional exige idas frequentes ao hospital, o que é um desafio.
“Verificamos que [pacientes] com feridas nos pés precisam ir muitas vezes ao hospital para cuidar da lesão e isso dificulta o tratamento“, explica Fleury. Ela ressalta que quem tem essa complicação geralmente possui dificuldade de locomoção. Além disso, o trajeto expõe a ferida a contaminações, e a dificuldade em manter a glicemia controlada no processo prejudica ainda mais a cicatrização.
O Rapha nasceu, portanto, com o objetivo de “desospitalizar” o paciente. Embora o acompanhamento médico continue essencial, ele pode ocorrer com uma frequência menor, pois o autocuidado diário é feito em casa.
Resultados que trazem esperança
Os resultados preliminares animam. Carlos Emídio dos Santos Araújo, 54 anos, participou da primeira fase de testes. Ele, que vive com diabetes e hipertensão, já havia amputado o pé direito. Quando as complicações avançaram no pé esquerdo, ele começou a usar o Rapha. “Eu considero que o aparelho contribuiu bastante para o processo de cura […] a cicatrização começou mesmo depois que passei a usar o equipamento“, conta Carlos.
Atualmente, o projeto está na Fase Clínica II, sendo testado em pacientes do Hospital Regional de Ceilândia (HRC). Ana Barbosa de Paiva, 80 anos, tratava uma lesão no calcanhar há dois anos sem sucesso. “Fazemos o tratamento em casa uma vez por dia e achamos bem fácil. Houve uma melhora evidente: a ferida está mais cicatrizada“, relata Elizabete Barbosa Paiva, filha e cuidadora de Ana.
Especialistas, como a endocrinologista Hermelinda Pedrosa, que já foi presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, veem a proposta com otimismo. Ela destaca que um tratamento ambulatorial rápido reduz custos, riscos de infecção hospitalar e o impacto na vida do paciente e da família.
Relembre: O drama do pé diabético e a importância da prevenção
Recentemente, abordamos aqui no site os perigos da neuropatia, a perda da sensibilidade que leva ao “pé diabético”. Em nosso Diabetes Cast, ouvimos o depoimento forte de Heloísa Malieri, que convive com a condição. Ela relatou como ignorou sinais (como a perda da sensibilidade térmica) e como um diagnóstico tardio levou a cinco cirurgias.
Também relembramos o caso impactante do humorista David Castilho (“Leão Loco”), que teve a perna amputada após um simples sapato apertado evoluir para uma infecção grave. Ambos os casos ilustram a urgência de tratamentos eficazes.

O Projeto Rapha: inovação brasileira que surge, portanto, como uma luz fundamental. Para pessoas como Heloísa ou David, que enfrentam feridas de difícil cicatrização, uma terapia que pode ser feita em casa, que acelera a regeneração tecidual e reduz o risco de infecções hospitalares, pode ser a diferença entre a cura e uma amputação. A tecnologia desenvolvida na UnB ataca exatamente o ponto mais crítico: fechar a ferida antes que ela se agrave.
Informações: Universidade de Brasília
UnB Ciência – Projeto Rapha acelera cura para o pé diabético
