Estima-se que 25% da população que vive com o diabetes enfrentará, em algum momento, problemas nos pés. Justamente por isso, essa complicação, popularmente conhecida como “pé diabético”, é uma das mais temidas, mas pode ser prevenida com informação e cuidados diários. Assim, para entender melhor o que é o pé diabético, seus riscos e, acima de tudo, como superá-lo, o jornalista Tom Bueno recebeu convidados especiais no Diabetes Cast.
Participaram da conversa a advogada e produtora de conteúdo Heloísa Malieri, que convive com o diabetes tipo 1 e com a complicação, bem como o Dr. Eduardo Araújo, ortopedista especialista em cirurgias do pé e tornozelo. Além disso, ambos reforçaram que a informação é o melhor remédio.
O que é o pé diabético?
Muitas pessoas não compreendem porque essa complicação ocorre. Basicamente, o Dr. Eduardo Araújo explica que o manejo inadequado da glicemia por longos períodos afeta diretamente os nervos do corpo.
“Esse aumento da glicose no sangue faz com que os nervos mais compridos do corpo comecem a morrer”, detalha o ortopedista. Portanto, os nervos dos pés, por serem os mais longos, são os primeiros afetados, levando à neuropatia diabética.
A neuropatia é a perda da sensibilidade prototora. Como explica o médico, a dor é o alarme do corpo. Infelizmente, quem tem neuropatia perde esse alarme. Assim, uma pedrinha no sapato, um calo ou um machucado passam despercebidos. O “pé diabético” é, portanto, qualquer trauma ou ferida em um pé que já perdeu a sensibilidade (neuropatia) e que pode, ou não, ter problemas de circulação (doença vascular).
A jornada de Heloísa: Os sinais ignorados
Heloísa Malieri, diagnosticada com diabetes tipo 1 na infância, conta que os sinais da neuropatia surgiram muito antes do diagnóstico da complicação, mas foram confundidos. “Na verdade, quando eu tive o diagnóstico do pé diabético, eu fiz uma retrospectiva de que sinais eu perdi ao longo do caminho”, relata.
Ela cita, por exemplo, a diminuição dos pelos nas pernas, unhas quebradiças (que ela atribuía ao balé clássico) e a perda de sensibilidade térmica. Além disso, Heloísa relembra um episódio marcante aos 21 anos: “Fui para Ubatuba […] não conseguia pisar direito com a sandália havaiana […] então tirei essa sandália […] Quando cheguei na casa dela [amiga], tirei toda a sola [do pé]. Não me pergunte como cicatrizou”.
Outros sinais que ela ignorou incluíam, ainda, a pele brilhante, pés gelados e uma sensibilidade estranha ao toque do lençol, como um “choquezinho”.
O diagnóstico e o impacto
O diagnóstico oficial, contudo, só veio aos 39 anos, durante a gravidez, quando ela já apresentava uma ferida aberta. “Foi aí que eu tive realmente o diagnóstico. Olha, você tem um pé diabético, você tem uma neuropatia diabética”, conta. Infelizmente, Heloísa lamenta que, mesmo após um diagnóstico prévio de retinopatia, nenhum médico tenha se atentado a examinar seus pés.
O diagnóstico foi pesado e, consequentemente, desencadeou uma série de cinco cirurgias em apenas um mês. Ela descreve o impacto físico e emocional para quem era ex-bailarina e acostumada a usar salto alto. “Você mexe com a parte da autoestima […] Foi um ressignificar muito importante, tanto físico quanto emocional […] É uma jornada”.
Quando a complicação vira realidade: O caso de David Castilho
A história de Heloísa ilustra os riscos, mas ela não é um caso isolado. De fato, recentemente, o humorista David Castilho, conhecido como “Leão Loco” do programa A Praça é Nossa, compartilhou seu drama pessoal: ele precisou amputar parte da perna direita.
A tragédia começou de forma trivial, com um sapato apertado durante um dia de trabalho. Conforme sua equipe relatou, “um machucadinho virou uma bolha, que virou uma ferida, que virou uma infecção”. Devido à condição, a infecção evoluiu de forma agressiva, e a amputação foi a única medida para salvar sua vida.
O caso de Castilho é, portanto, um exemplo contundente de como a neuropatia (que impede a pessoa de sentir o machucado) e a doença vascular (que dificulta a cicatrização) podem transformar um pequeno ferimento em uma emergência grave. “Vou precisar me reinventar, e vou conseguir […] eu vou ficar em pé de novo!!!”, declarou o humorista, mostrando resiliência.

Prevenção: O melhor tratamento
O Dr. Eduardo Araújo é enfático: a prevenção é sempre o melhor tratamento. No entanto, para quem já tem a neuropatia instalada, a rotina de cuidados deve ser rigorosa, como um “checklist de avião”.
“Se a complicação vir, tem que, na hora, procurar ajuda médica”, alerta. Sendo assim, o primeiro passo ao notar qualquer alteração é retirar a carga do pé (não pisar) e procurar atendimento de urgência.
A prevenção diária, segundo o médico, envolve:
- Primeiramente, inspeção visual: Olhar o pé todos os dias, incluindo a sola e os espaços entre os dedos, procurando vermelhidão, calor ou feridas. Para quem tem dificuldade, o uso de um espelho ajuda.
- Em segundo lugar, higiene: Secar muito bem os pés após o banho, especialmente entre os dedos, para evitar micoses.
- Também, hidratação: Usar hidratante no dorso e na planta do pé, mas nunca entre os dedos (para não manter a área úmida).
- Cuidados: Cortar as unhas de forma reta e usar meias de algodão.
- Finalmente, calçados: Nunca andar descalço e usar calçados adequados e confortáveis.
Portanto, para quem perdeu a sensibilidade, o Dr. Araújo resume: “A dor dela é olhada pelos olhos. É o visível”.
Sinais de alerta e cuidados avançados
Além da perda de sensibilidade, a neuropatia pode ser motora, causando deformidades como os “dedos em garra”, e autonômica, deixando a pele seca. Infelizmente, essas deformidades criam novos pontos de pressão, que geram calos.
O Dr. Araújo adverte que os calos são perigosos: “embaixo desse calo, por ser uma hiperpressão, vai surgir uma ferida”. Por isso, Heloísa Malieri complementa sobre a importância de procurar profissionais especializados, como podólogos com foco em quem tem diabetes, além de médicos vasculares e ortopedistas.
Ela mesma conta que, recentemente, um sapato usado por meio dia lhe causou uma ferida com exposição óssea, exigindo cirurgia de emergência. Felizmente, a rapidez no atendimento evitou uma complicação maior. “Talvez, se eu não tivesse me dado conta rapidamente […] talvez um mês depois eu não tivesse o sucesso que teve com a cirurgia”, reflete. Em seguida, o Dr. Araújo confirma: “Não teria mais o dedo”.
Uma mensagem de superação
Embora o tema seja alarmante, Heloísa Malieri, que convive há 40 anos com o diabetes, deixa uma mensagem de força. Pois, ela enfatiza que, embora não tenhamos controle sobre o diagnóstico, temos controle sobre o que fazer com a informação.
“Mas você tem controle dali pra frente. O que eu faço com essa informação? […] A gente vai se adaptar à nova condição, como a gente se adapta com diabetes. É mais um… uma caixinha que eu tenho que cuidar. Mas eu tô aqui de pé”, finaliza.
