A Hipoglicemia em quem usa insulina é uma ocorrência comum, mas exige atenção e manejo correto. Este é o tema central de um bate-papo recente no DiabetesCast, apresentado pelo jornalista Tom Bueno. O programa teve a participação da endocrinologista Denise Franco e da nutricionista e educadora em diabetes Tarsila Campos. O episódio, portanto, ressaltou a importância do conhecimento e da ação rápida para evitar que o medo dessa condição comprometa o controle glicêmico.
A Hipoglicemia em quem usa insulina é definida como a queda da glicemia abaixo de 70 mg/dL. Assim, o estudo HET Brasil, citado por Tom Bueno, mostrou que 91,7% das pessoas que têm diabetes tipo 1 e usam insulina e 61,8% das pessoas que têm diabetes tipo 2 e usam insulina, apresentaram episódios de hipoglicemia em apenas quatro semanas.
Reconhecer e tratar a hipoglicemia
O apresentador Tom Bueno compartilhou sua experiência. Ele revelou que antes de ter sua primeira crise, acreditava que ter a glicose o mais baixa possível era o ideal. No entanto, o corpo necessita de um nível ideal para funcionar. Denise Franco explica que, quando a glicemia cai abaixo de 70 mg/dL, o organismo dispara defesas para elevá-la. Ele libera hormônios como adrenalina e cortisol. Assim, esses hormônios são responsáveis pelos sintomas mais comuns, por exemplo:
- Coração acelerado;
- Suor excessivo;
- Sensação de pânico ou agitação;
- Alteração na fala ou no comportamento (em crianças e idosos).
A endocrinologista ressalta que “esses sintomas são bem individualizados“, e Tarsila Campos complementa que é crucial identificar essas mudanças comportamentais. Dessa forma, durante a gravação, Tom Bueno demonstrou em tempo real o início de uma queda, com sintomas visíveis. A equipe agiu rapidamente para o tratamento.
Hipoglicemia no diabetes tipo 1 e tipo 2
Questionada sobre as diferenças da hipoglicemia em quem tem diabetes tipo 1 e tipo 2, Dra. Denise Franco esclarece que a definição do quadro é a mesma (glicemia abaixo de 70 mg/dL). Contudo, os sintomas podem variar dependendo do tratamento. As insulinas de ação mais lenta causam quedas mais graduais. Em contraste, as de ação rápida podem gerar sintomas mais agudos.
Além disso, é comum que pessoas com diabetes tipo 2, especialmente as que não usam insulina, recebam menos orientações sobre como reconhecer a condição. Tarsila Campos classifica isso como um desafio educacional. A nutricionista destaca:
“Se faz uso de insulina, às vezes a primeira insulina que entra no diabetes tipo 2 é aquela que a gente chama de antes de dormir, [uma] insulina basal… monitorar, entender como que o tratamento age na sua vida, porque a gente também vai incentivar essa pessoa a praticar atividade física…”.
O jornalista Tom Bueno levanta a importância da monitorização: “O que adianta você monitorar a glicemia se você não tiver um profissional que vai checar essa monitorização que você fez e dar orientação?“. Portanto, a Dra. Denise reforça que o profissional de saúde deve estimular o paciente a checar a glicemia e orientar o que fazer com a informação. Assim, a monitorização se torna um aprendizado para o autocuidado.
O medo que atrapalha o tratamento: Falsa hipoglicemia
Um dos maiores desafios surge quando o medo da hipoglicemia severa (aquela em que o paciente não consegue se autotratar ou perde a consciência) leva a pessoa a manter a glicose intencionalmente mais alta. Denise Franco afirma:
“A pessoa acaba vivenciando um trauma. E, a partir daí, como eu não quero mais, eu acabo deixando a glicemia mais alta, no intuito de evitar aquela situação de estresse ou de trauma”.
A nutricionista Tarsila Campos explica que quem se acostuma com níveis altos (acima de 200 mg/dL, por exemplo) pode sentir sintomas de hipoglicemia mesmo com a glicemia em níveis “normais” (como 100 mg/dL). A queda brusca é reconhecida pelo corpo como uma ameaça. A Dra. Denise chama este fenômeno de neuroglicopenia, ou “falsa hipoglicemia”. Nela, o cérebro entende que tem menos glicose do que estava habituado. No entanto, ela alerta que, embora os sintomas sejam desagradáveis, eles funcionam como um sistema de defesa.
Alimentos certos para o tratamento de emergência
No momento do tratamento, o objetivo é a eficiência e a rápida absorção do açúcar. Tarsila Campos e Denise Franco enfatizam a importância de não normalizar a hipoglicemia e de ter sempre à mão o que elas chamam de “arsenal de orientação de sobrevivência“.
A Hipoglicemia em quem usa insulina deve ser tratada com 15g de carboidrato de rápida absorção para adultos. Para crianças, o equivalente deve ser adaptado ao peso (cerca de 0,3g de açúcar por quilo).
Melhores opções de tratamento:
- Açúcar em sachê ou torrão: Esta é a opção mais rápida e ideal. Você pode colocar diretamente na boca ou dissolver em água. O açúcar em contato com a mucosa já acelera a absorção.
- Suco de laranja (150 ml): Use apenas o suco, sem a fibra da fruta, que lentifica a absorção.
- Refrigerante comum (não zero): Cerca de 150 ml.
- Balas: Em média, cada bala contém 5g, exigindo de 3 a 4 unidades para um adulto.
- Mel em sachê: Fácil de carregar e de rápida absorção.
Piores opções para o tratamento (devem ser evitadas):
- Chocolate ou bombom: Eles contêm gordura, que atrasa a absorção do açúcar em até 5-6 horas.
- Leite com achocolatado: Contém proteína e gordura, o que lentifica o processo.
- Frutas: Contêm fibra, que não é desejada no momento de emergência.
- Alimentos com proteína (ovo, queijo): Estes não contêm carboidrato de rápida absorção e não corrigem a hipoglicemia.
Tarsila Campos conclui que o tratamento é uma “estratégia terapêutica para uma complicação aguda” e não um “doce que a criança gosta“. Contudo, Denise Franco ressalta: “Se eu não tiver nenhum deles, eu como aquilo que tenho… na hipoglicemia o importante é a gente corrigir“.
Tom Bueno finaliza o episódio com a glicemia estabilizada e o alerta: “Não podemos normalizar que faz parte do tratamento ter hipoglicemia“. É fundamental o diálogo com a equipe de saúde sobre a frequência de episódios para ajustar a terapia e buscar maior segurança.
