O presente do entendimento no dia das crianças
Neste Dia das Crianças, a melhor forma de celebrar é investir no futuro e na saúde de quem tem o diabetes. A condição, muitas vezes, é cercada de termos técnicos que dificultam a compreensão e a participação ativa dos pequenos no seu próprio cuidado. Como um presente que dura a vida toda, falar sobre o diabetes com as crianças de forma lúdica é um convite ao letramento em saúde, empoderando-as desde cedo.
Conversamos com Priscila Pecoli, psicóloga clínica, psicanalista e especialista em saúde mental e diabetes, que também é pesquisadora na USP. Ela enfatiza que este processo é um convite para traduzir o cuidado em uma linguagem mais acessível e que permita às crianças sentirem e participarem mais. Priscila destaca que, mais do que dar informações, é crucial promover o letramento em saúde.
“Mais do que a gente dar informação, a gente está tentando promover aí o que a gente chama em saúde de letramento, que significa a gente ajudar essa pessoa desde muito cedo, ela entendendo o que acontece com o próprio corpo, ela reconhecer sinais, fazer perguntas e começar também a participar das decisões sobre o cuidado“, afirma a especialista.
Abordagens lúdicas por faixa etária
Priscila Pecoli sublinha que a abordagem precisa se adaptar à faixa etária da criança. Considerar o desenvolvimento cognitivo é essencial para que a mensagem seja absorvida de forma positiva e eficaz.
Primeira infância: construindo familiaridade com o tratamento
Na primeira infância, o foco está em criar familiaridade com o tratamento. A psicóloga explica que brincadeiras, histórias e metáforas são super bem-vindas, ajudando a integrar o cuidado à vida da criança. Assim, evita-se cair na situação de medo ou culpa. A especialista sugere usar frases simples sobre o uso da insulina, apresentando-a como um personagem importante nessa rotina.
Utilize, por exemplo, um boneco ou bichinho de pelúcia para simular a aplicação da insulina ou a medição da glicemia. Apresente a insulina como o “super-herói” ou a “chave mágica” que ajuda o corpo a funcionar bem, abrindo caminhos potentes para a criança compreender o que se passa com ela. Esta prática torna o cuidado um elemento de rotina e não uma exceção assustadora.
Idade escolar: ampliando o diálogo e a participação
Quando as crianças atingem a idade escolar, ampliamos mais o diálogo. Neste momento, incluímos esses jovens em pequenas decisões e os ajudamos a reconhecer as emoções diante do diabetes. Consequentemente, a criança deixa de encarar o tratamento como algo imposto e passa a vivê-lo como um processo do qual pode participar. Essa abertura promove confiança e dá sentido ao cuidado.
Falar sobre o diabetes com as crianças nessa idade significa incluí-las na escolha do local de aplicação ou no horário da medição, por exemplo. Isso as transforma em agentes ativos, e não apenas recebedoras do cuidado. Priscila ressalta que essa participação ativa planta as bases de uma relação saudável e duradoura com o tratamento. Além disso, incentive a criança a desenhar a história da insulina em seu corpo, dando cores e formas ao tratamento.
Inspiração na prática: o exemplo do livro da Biabética
A importância de falar sobre o diabetes com as crianças de forma lúdica encontra um poderoso exemplo na história de Beatriz Scher Montalvão, mais conhecida como a Biabética. Ela recebeu o diagnóstico aos 6 anos, mas a forma como seu pai conduziu a situação foi um divisor de águas. Para que a filha entendesse a condição, ele desenhou uma fábrica de insulina e os anticorpos que atacavam o pâncreas.
Anos depois, essa experiência se transformou no livro de pintar “As chaves da Beatriz”, um material educativo e terapêutico que ajuda outras crianças a compreenderem o diabetes sem medo. A Biabética transformou a experiência pessoal em propósito, mostrando que a arte e a criatividade são ferramentas poderosas para o letramento em saúde. O livro não apenas educa sobre a condição, mas também convida os pais e responsáveis a ressignificarem sua relação com o tratamento, reforçando a importância da comunicação clara e do acolhimento.
A história da Biabética é realmente linda, tanto é que preparamos uma matéria especial sobre ela. Vale a pena clicar aqui e conhecer melhor.
A essência da comunicação empática no cuidado do diabetes
A comunicação é o alicerce de todo o processo. Independente da idade, a psicóloga Priscila Pecoli é enfática: a comunicação precisa ser clara, respeitosa e empática.
“A comunicação precisa ser sempre clara, respeitosa, empática, porque não é só sobre o que a gente precisa fazer, mas é também sobre o como e o porquê que a gente precisa fazer essas coisas“, destaca a psicóloga.
O poder do “porquê” e a voz ativa no cuidado
Quando a criança compreende a razão do cuidado e se sente ouvida, ela se torna agente desse cuidado. Portanto, explique que o “personagem” insulina é necessário porque a “energia” do corpo (o açúcar) precisa de ajuda para entrar nas células. A todo momento, valorize o protagonismo de quem tem o diabetes no seu próprio tratamento.
Afinal, a transparência e o carinho no falar sobre o diabetes com as crianças neste Dia das Crianças constroem os alicerces de uma relação saudável que perdurará por toda a vida.