Ontem terminou o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental. Assim, a data é um lembrete importante de que o cuidado com a mente deve ser uma prioridade contínua, especialmente para quem vive com condições crônicas. Em um relato sincero e pessoal, o jornalista Tom Bueno, que tem diabetes, trouxe a tona um tema que muitos vivem, mas poucos compartilham: a exaustão do diabetes.
O desabafo de Tom Bueno: a vulnerabilidade após a hipoglicemia
O vídeo de Tom Bueno, gravado logo após um episódio de hipoglicemia noturna, revela a face da exaustão do diabetes que afeta a saúde física e mental. O jornalista compartilhou a sensação de ter o “cérebro lento” e a frustração de não conseguir lidar com as tarefas diárias, sentindo-se incompetente.
Tom Bueno abriu uma discussão crucial sobre vulnerabilidade, mostrando que esses momentos de desespero e dificuldade são comuns, mas permanecem, muitas vezes, em silêncio.
Exaustão do diabetes: não é falha, é o corpo se recompondo
A hipoglicemia, queda acentuada da glicose no sangue, não afeta apenas o corpo. A psicóloga clínica Priscila Pecoli, especialista em saúde emocional de quem tem diabetes, reforça que o relato de Tom Bueno “escancara algo que muita gente vive e sente, mas pouco falam a respeito.”
“Depois de uma hipoglicemia, a cabeça parece que não acompanha. Fica lenta e confusa,” explica Pecoli. A especialista desmistifica a ideia de que mais esforço resolveria o problema, afirmando que a lentidão “não é algo que está ao nosso alcance ‘corrigir’ na marra: é o corpo que precisa de tempo para se recompor.”
Quando a glicose cai, o cérebro perde o combustível necessário para pensar e reagir rapidamente. Priscila Pecoli frisa que é fundamental compreender isso: “Isso não é falta de esforço, muito menos incompetência: é apenas o corpo reagindo da forma que sabe.”
A culpa se esfarela com o conhecimento
Muitas pessoas que têm diabetes carregam o peso da culpa após momentos de descontrole, como uma hipoglicemia. No entanto, a psicóloga Priscila Pecoli explica que o conhecimento sobre como o corpo reage desfaz esse sentimento.
“Em vez de acreditar ‘fiz algo errado’, podemos dizer: ‘meu corpo está se reorganizando‘,” sugere Priscila. Esse olhar transforma a autocrítica em compreensão e cuidado. A exaustão do diabetes é o resultado de uma carga diária que nunca dá folga, e a exaustão mental não surge de repente. Ela se acumula em camadas, como o medo de novas hipos, o esforço para esconder a vulnerabilidade, e a frustração de ver que, mesmo cuidando, as coisas fogem do esperado. Esse peso repetido gera o que chamamos de diabetes distress, um estresse específico que pode evoluir para a exaustão profunda.
Os comentários ao vídeo de Tom Bueno mostram que esse sentimento é compartilhado, com muitas pessoas dizendo: “não se culpe.”
O apoio que realmente faz a diferença
Lidar com a exaustão do diabetes exige mais do que apenas o manejo físico; a saúde mental é crucial. O apoio de familiares, amigos e profissionais de saúde faz toda a diferença no bem-estar geral.
Priscila Pecoli ressalta a importância de um apoio atento, que “escuta antes de falar.” Mensagens genéricas ou metáforas como “guerreiro” podem, paradoxalmente, aumentar a pressão em vez de acolher. O cuidado, na prática, precisa aliviar, não pesar.
O que fazer quando a exaustão chega, segundo a psicóloga:
- Para quem vive com diabetes:
- Reconhecer: Entenda que é um episódio de exaustão, não uma falha pessoal.
- Dar tempo ao corpo: Não force; adie tarefas complexas e simplifique as metas temporariamente.
- Buscar ajuda: Compartilhe com alguém de confiança e converse com sua equipe de saúde sobre o diabetes distress.
- Para familiares e amigos:
- Tranquilizar: Use frases como “seu corpo está se recuperando, não há pressa agora” para reduzir a ansiedade.
- Estar junto: Mostrar presença é poderoso; diga “estou aqui com você.”
- Agilizar coisas práticas: Prepare o suco ou organize algo do dia a dia, pois o cérebro pode ficar mais lento após a hipo.
O que evitar: fiscalizar a glicose, comparar a jornada de cuidado com a de outras pessoas, ou usar termos que reforcem a ideia de “perder” ou “vencer” o diabetes.
O cuidado com a saúde mental de quem tem diabetes é um compromisso contínuo, que deve seguir para além do Setembro Amarelo.