Em um cenário onde a gestão do diabetes no Brasil enfrenta desafios significativos, dados apresentados durante a EASD 2025 (Congresso Europeu sobre o Diabetes) em Viena trouxeram uma reflexão importante. Durante um simpósio focado em registros de diabetes, a doutora Solange Travassos e o especialista Fernando Valente debateram como a Europa, em especial os países escandinavos, pode servir de exemplo para o Brasil. Na prática, os números mostram uma grande disparidade: enquanto a Finlândia atinge metas impressionantes, o Brasil ainda lida com um longo caminho a percorrer.
Metas europeias e a realidade brasileira
O simpósio apresentou dados de registros de diabetes de mais de 50 países europeus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu metas claras para esses registros, como ter pelo menos 80% dos pacientes com diagnóstico e 80% bem controlados. A Finlândia, por exemplo, não apenas atinge, mas supera essas metas, com mais de 80% dos pacientes diagnosticados e 86% com bom controle glicêmico. A Bélgica também se destaca, com quase 70% de seus pacientes bem controlados, utilizando uma glicada abaixo de 8%. Por outro lado, o Brasil mostra uma realidade alarmante. Para quem tem diabetes tipo 1, menos de 25% das crianças e apenas 15% dos adultos alcançam a meta de HbA1c.
“Quando você olha a Europa inteira, você tem países bem abaixo, países mais pobres. Mostraram dados lá dos piores em torno de 30% das metas,” comentou Solange Travassos. “Mas quando a gente pensa em Brasil, a gente pensa assim, nossa, 80% dos pacientes bem controlados? Se a gente não tiver uma mudança muito grande, a gente vai levar a vida inteira para chegar nisso.”
Falta de dados e atraso no acesso
O atraso do Brasil reflete falhas em múltiplos pontos. Em primeiro lugar, há a carência de dados nacionais consolidados. O país, em contraste com a Finlândia, não possui um registro completo da sua população que convive com o diabetes. Em segundo lugar, o acesso a insulinas, fitas de monitorização e consultas regulares é limitado. Muitos pacientes passam anos sem fazer exames fundamentais, como o de fundo de olho. Além disso, a cobertura da atenção básica nem sempre é adequada para a complexidade da condição.
Para Solange Travassos, o problema é sistêmico. “A gente não tem dados. Eu acho que isso é muito importante. A gente não conhece a nossa população. Então a primeira coisa é melhorar a forma de registro“, explica ela. “Mas a gente não pode fazer só isso e esperar para avançar no tratamento, porque a gente já tem um atraso tão grande.”
Soluções e o caminho a seguir
Para se aproximar dos resultados já alcançados pelos países escandinavos, o Brasil precisa investir em ações paralelas e urgentes. A primeira medida é, sem dúvida, melhorar a coleta de dados e criar registros de qualidade. Em seguida, é preciso ampliar o acesso a tratamento e exames básicos. Uma das metas da OMS é garantir 100% de acesso à insulina e monitorização para todos os pacientes.
“A gente tem muitos pacientes com diabetes usando só NPH. A gente tem um problema crônico de acesso à fita. É um trabalho de acolhimento, melhorar o tratamento no sentido de acesso, no sentido de oferecer consulta.”
É também fundamental fortalecer a educação médica, especialmente na atenção primária. Muitos pacientes com diabetes tipo 1 são acompanhados por médicos generalistas que podem não ter o foco e o conhecimento necessários para uma gestão eficaz da condição. A adoção dos protocolos e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde, elaborados em colaboração com a SBD, é crucial.
“Nós temos protocolos no Ministério da Saúde… se eles fossem pelo menos colocados em prática como está lá, a gente já estaria numa situação melhor,” diz a especialista. É evidente que o desafio é enorme, mas aprender com as experiências de outros países e cobrar a aplicação ideal desses protocolos é um primeiro passo vital.
