O Congresso Europeu de Diabetes (EASD 2025) trouxe à tona uma discussão muito importante: como o hipercortisolismo, ou o excesso do hormônio do estresse cortisol, pode atrapalhar a vida de quem tem diabetes tipo 2. A palestra do professor Ralph DeFronzo mostrou que este problema é mais comum do que pensamos.
O endocrinologista Fernando Valente, que acompanhou o evento, destacou um ponto crucial: “o professor Ralph DeFronzo, icônico, acabou de dar uma palestra sobre o paciente que é subdiagnosticado, um indivíduo que tem diabetes tipo 2 que não está na meta apesar de vários medicamentos antidiabéticos, tem hipertensão, tem uma série de comorbidades“. A médica Virgínia Fernandes, que também estava lá, reforçou que esta é uma situação que passa despercebida muitas vezes.
Um estudo recente, chamado CATALYST, ajudou a mostrar a dimensão do problema. Ele avaliou um grupo específico de pacientes com diabetes tipo 2 e várias outras condições de saúde. O resultado foi uma surpresa: quase 1 em cada 4 pacientes (24%) apresentava excesso do hormônio do estresse, um problema que nem sempre é investigado. Essa descoberta sugere que muitos indivíduos enfrentam um descontrole da glicemia por causa de um fator hormonal que não foi identificado.
Uma nova perspectiva sobre o diabetes
A descoberta de que o excesso do hormônio do estresse é tão comum nesse grupo de pacientes fez o professor DeFronzo propor uma mudança em um conceito clássico do diabetes. Ele expandiu o famoso “Oito Ominosos”, que explica os principais problemas que levam ao diabetes tipo 2, para o “Nove Nocivos”. Com efeito, ele incluiu o hipercortisolismo como o nono mecanismo, ou seja, um novo alvo para o tratamento da condição.
Essa nova maneira de pensar a condição reforça a necessidade de olhar além dos tratamentos comuns. “Muitas vezes essa é a causa desse descontrole tão importante“, pontua Virgínia Fernandes. O hipercortisolismo pode ser o fator que explica por que uma pessoa tem dificuldades em alcançar as metas de glicemia, mesmo usando muitos medicamentos. Por isso, a comunidade médica deve ficar mais atenta a este fator para oferecer um tratamento mais eficaz.
Um tratamento promissor
A discussão sobre o excesso do hormônio do estresse ganhou ainda mais força com os resultados de um tratamento inovador. Uma pesquisa com o medicamento mifepristona, que bloqueia a ação do cortisol, mostrou resultados expressivos.
Em um estudo com 136 pacientes, o tratamento com a mifepristona por 24 semanas levou a uma redução média de 1,3% no HbA1c, que é um resultado muito bom. “A resposta foi muito boa“, confirma Virgínia Fernandes. “Houve também uma perda de 5 quilos em média de peso e uma necessidade muito menor de uso de insulina e de outros medicamentos“.
Estes resultados indicam que, ao tratar a causa por trás do problema, é possível melhorar de forma significativa os resultados de saúde. O professor DeFronzo ressaltou que esse é um teste fácil de realizar e que os médicos já usam em suas consultas. Portanto, a mensagem final do congresso é clara: precisamos procurar mais ativamente por esses casos. Ao investigar o excesso do hormônio do estresse, podemos encontrar a solução para um controle da glicemia mais efetivo para quem vive com diabetes tipo 2.
