Na 61ª Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), a ligação entre o diabetes e o câncer foi um tema central. O evento acontece em Viena. As discussões trouxeram novas informações sobre o risco oncológico. O médico Luciano Giacaglia está presente no encontro. Ele explicou que a relação pode começar antes do diagnóstico do diabetes tipo 2.
Afinal, a prevalência de câncer é maior em quem tem pré-diabetes. “A prevalência já começa bem antes“, explicou o especialista. Isto sugere que não é apenas o excesso de glicose no sangue que contribui para o processo. Na verdade, um conjunto de fatores metabólicos está envolvido.
O papel da resistência à insulina e da gordura visceral
A resistência à insulina é um dos principais vilões. Ela ocorre quando as células não respondem bem à insulina. Consequentemente, o pâncreas produz mais insulina, e também mais fatores de crescimento, como o IGF-1. Além disso, em quem tem obesidade, especialmente gordura visceral, esses fatores estão mais elevados.
Giacaglia também destacou outros pontos. Deste modo, a glicotoxicidade, por exemplo, pode induzir alterações celulares. Além disso, ela também interfere na capacidade do sistema imunológico de combater células cancerígenas. Assim, outro fator relevante é que os tipos de câncer mais relacionados ao diabetes são aqueles ligados ao depósito de gordura ectópica. Isso inclui órgãos como fígado, pâncreas e rim.
A importância do diagnóstico precoce e do rastreamento
Um dado surpreendente apresentado no congresso foi a prevalência de câncer ser maior em quem tem um diagnóstico recente de diabetes tipo 2 (entre 0 e 3 meses) do que em quem tem a condição há mais tempo. Este achado pode estar relacionado ao viés de sobrevivência, como pontuado por Giacaglia.
“Eu acredito que os outros indivíduos, quem sobreviveu ao câncer no começo, é que pode entrar no estudo, os demais eventualmente foram a óbito em função desse câncer”.
Diante disso, a mensagem principal é a necessidade de um rastreamento oncológico efetivo em populações de risco, como quem tem obesidade, síndrome metabólica e pré-diabetes. Se avaliarmos o pré-diabetes, é possível que encontremos mais casos de câncer do que em um diabetes de longa duração.
Novas terapias e a mortalidade por câncer
Ainda no EASD 2025, os dados reforçaram que, apesar da redução da mortalidade por condições cardiovasculares e renais em quem tem diabetes, a mortalidade por todas as causas não diminuiu de forma tão expressiva. Isso sugere que as pessoas que não estão morrendo do coração ou de problemas renais estão evoluindo para o câncer. Giacaglia concluiu que é fundamental enfatizar a importância da redução da gordura corporal e também a segurança das terapias atuais. “Os agentes incretínicos, que são classes terapêuticas modernas, mostram um benefício em termos de redução da ocorrência de todos os tipos de câncer, sendo neutros apenas para a mama e tireoide, que também não existe um incremento, como muitas pessoas têm esse receito“, pontuou o especialista. A redução do peso é uma das estratégias mais eficazes para diminuir os riscos.
Conclusão e a visão para o futuro
Em resumo, a pesquisa apresentada na EASD 2025 reafirma a ligação entre o diabetes e o câncer, mas com uma nova perspectiva: essa conexão pode ser observada muito antes do diagnóstico formal do diabetes. Isso nos faz repensar as estratégias de prevenção e tratamento, destacando a necessidade de rastreamento e do controle de fatores de risco como a resistência à insulina e a obesidade. O que fica de mensagem é que não devemos temer o tratamento, mas sim a base de tudo: a obesidade e o pré-diabetes, que podem ser controlados com as ferramentas certas.
