O desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul contribuiu para uma piora significativa da saúde mental em idosos com diabetes tipo 2, especialmente naqueles diretamente afetados pelas inundações. Esta conclusão vem de um novo estudo, publicado em julho na revista científica Diabetology & Metabolic Syndrome. A pesquisa, coordenada pelo Centro de Pesquisa Clínica do Hospital São Lucas da PUCRS, analisou o impacto da tragédia em 80 pacientes idosos. Do total de participantes, a enchente atingiu diretamente 50 e afetou 30 de forma indireta. A investigação aconteceu entre 24 de maio e 5 de junho do ano passado. O estudo revelou que 60% dos participantes sofreram impactos diretos durante a pior tragédia climática do estado. Os pesquisadores definiram “impactados” como aqueles que precisaram sair de casa, tiveram a casa inundada ou ficaram, pelo menos, 72 horas sem água ou energia.
Acesso prejudicado a cuidados e medicamentos
Pesquisadores treinados conduziram o estudo por meio de um levantamento por telefone. Eles formaram o grupo pesquisado com pacientes idosos que convivem com o diabetes, dividindo-os entre aqueles que a enchente impactou diretamente e os não diretamente impactados. Os pesquisadores do Hospital São Lucas também consideraram como impactados aqueles que não se enquadravam nos critérios anteriores.
Além das perdas materiais e financeiras, o desastre trouxe graves sequelas para a saúde mental desses pacientes. Os participantes cujas casas foram diretamente atingidas pela água relataram interrupções no tratamento. Isso incluiu, por exemplo, a falta de medicamentos essenciais como a insulina. Também enfrentaram dificuldades para ter acesso a cuidados médicos e precisaram lidar com mudanças na dieta e na rotina de atividade física. Portanto, a pesquisa destaca como os desastres naturais podem comprometer o bem-estar físico e mental, especialmente em populações vulneráveis.
Como lidar com situações como esta
Diante de um cenário de desastre e perdas, é crucial buscar apoio profissional para cuidar da saúde mental. A ajuda de um especialista é fundamental, pois ele pode guiar o indivíduo através de estratégias de enfrentamento e resiliência. Conforme a psicóloga clínica Priscila Pecoli, “a resposta aos desastres precisa integrar cuidados médicos, logística de medicamentos e suporte psicossocial. Na prática clínica isso significa priorizar a reposição imediata de insulina e medicamentos, garantir informação clara e prática às famílias e oferecer intervenções de primeiro apoio psicológico (escuta reflexiva, avaliação de necessidades, priorização e encaminhamento)”.
Assim, o acompanhamento psicológico oferece um espaço seguro para expressar medos, angústias e frustrações. Além disso, é importante ressaltar a necessidade da pessoa se reconectar com sua rede de apoio social, seja ela familiar, de amigos ou grupos de comunidade, pois este suporte fortalece a capacidade de superação. Priscila Pecoli acrescenta:
“Essas ações estabilizam emoções agudas, preservam o engajamento ao tratamento e reduzem riscos de descompensação. Por isso, pensando em políticas públicas, é preciso focar na criação de planos locais de contingência para estoques e linhas de apoio psicológico durante e após a enchente.”.
