Muitas pessoas associam o diabetes a complicações de visão, e essa preocupação não é infundada. Contudo, essa relação não é uma sentença, mas uma consequência da falta de cuidado. O jornalista e influenciador Tom Bueno, do canal Um Diabético, conversou com a oftalmologista Letícia Rubman, que também é mãe de uma criança com diabetes tipo 1, para esclarecer as dúvidas e desmistificar os medos em torno da saúde ocular.
A especialista destaca que a retinopatia diabética é uma das principais complicações da doença. Conforme a médica, “quando a gente pensa em diabetes, dos sentidos que a gente tem, é o que mais realmente causa uma preocupação ao paciente”. Por essa razão, o acompanhamento regular e o controle da glicemia são fundamentais para evitar problemas futuros.
O que causa a retinopatia diabética?
A retinopatia diabética é uma alteração microvascular que afeta os pequenos vasos sanguíneos no fundo dos olhos. A Dra. Rubman explica que essa complicação se manifesta em decorrência da hiperglicemia crônica, ou seja, níveis de glicose no sangue que permanecem altos por um longo período.
A retina, que é um tecido de neurotransmissão e uma das últimas camadas que reveste o globo ocular, pode sofrer com o comprometimento desses vasos. “Isso acontece quando os níveis de glicose permanecem altos por muito tempo. A gente está falando de uma glicose alta crônica”, reforça a oftalmologista. É importante, todavia, notar que isso não ocorre por picos glicêmicos esporádicos. Em vez disso, a retinopatia diabética se desenvolve em pacientes que negligenciaram o controle do diabetes ao longo dos anos.
Sinais de alerta e diagnóstico precoce
A princípio, a retinopatia diabética é assintomática, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. A médica relata que é comum identificar a doença durante exames de rotina. Um dado alarmante citado por ela é que, no Brasil, “quase 40% dos diabéticos tipo 2, no momento do diagnóstico, ele já até apresenta algum quadro de retinopatia por diabetes”. Portanto, a visita ao oftalmologista se mostra crucial para um diagnóstico precoce.
Outra questão importante é a visão turva ou embaçada, que muitos pacientes com diabetes experimentam antes mesmo de receberem o diagnóstico. A Dra. Rubman explica que a glicose alta modifica a osmolaridade de uma estrutura ocular, causando um “falso grau” que resulta em visão embaçada. A boa notícia é que “isso melhora, isso regride a partir do momento que o paciente começa a ter um quadro de melhor cuidado, de melhor controle”.
O exame de mapeamento de retina é essencial para a saúde ocular. É um procedimento de rotina, mas se torna ainda mais importante para pacientes com diabetes, pois permite ao oftalmologista visualizar toda a parte periférica da retina.
Tratamentos e a importância da aderência
A medicina evoluiu muito nos últimos anos, e existem tratamentos eficazes para retardar a progressão da retinopatia diabética. A Dra. Letícia Rubman afirma que “a questão é quando tem indicação de tratamento e não se tratar. A questão tá aí”. Por conseguinte, a adesão ao tratamento é fundamental.
Entre as terapias mais modernas estão a fotocoagulação a laser e as injeções intravítreas de medicamentos. Essas injeções, por exemplo, possuem protocolos bem desenhados para proporcionar intervalos maiores entre as aplicações, o que melhora a experiência e a qualidade de vida do paciente. É importante lembrar, todavia, que o tratamento não substitui a necessidade do controle glicêmico.
Outras complicações como o edema macular diabético podem manifestar sintomas mais evidentes, como alteração na visão. Segundo a Dra. Rubman, ele pode ocorrer junto ou separado da retinopatia e tende a levar o paciente ao médico mais rapidamente, pois o inchaço da mácula (região central da retina) afeta a visão. O diabetes também pode acelerar o surgimento de cataratas e, em estágios muito avançados, até mesmo de um tipo raro de glaucoma.
A prevenção é o caminho
A melhor forma de prevenir a retinopatia diabética e outras complicações visuais é através do controle rigoroso da glicemia. Segundo a Dra. Letícia, “do primeiro ao décimo lugar é o controle clínico do diabetes do paciente”. Sem a participação ativa do paciente em seu próprio tratamento, nenhum arsenal de medicamentos ou terapias terá o efeito desejado.
A progressão da retinopatia é lenta e geralmente leva anos. Assim, a perda de visão não acontece “do dia para a noite”, mas sim de forma gradual. O estigma e o medo em relação à cegueira podem ser combatidos com educação e informação. O diabetes pode ser seu melhor amigo, se você o cuidar corretamente, mantendo uma alimentação saudável e praticando atividade física.
Para concluir, a mensagem é de esperança e empoderamento. A especialista conclui:
“não tenha medo. Cuide de você. Vá até um profissional e dali tenha uma informação clara, correta, para que você consiga ter uma qualidade de vida. E hoje em dia, gente, é muito possível”.
