Aline Alves Paiva, 31 anos, foi ao hospital como acompanhante do sobrinho. Convivendo com diabetes, começou a sentir a glicose cair logo após a entrada na unidade.

“A médica me perguntou se eu estava bem, falei que minha glicose estava caindo, e ela mandou procurar as enfermeiras. Lembro delas rindo, dizendo ‘aham, sei que é a glicose’. Voltei para a cadeira e desmaiei ao lado do meu sobrinho. Só lembro de acordar depois. Achei que ia morrer.”
Aos 47 anos, a recepcionista de eventos Juliana Gomes também passou por algo semelhante. Isso porque, voltando do trabalho, sofreu uma crise na rua e caiu em cima de uma mulher no ponto de ônibus.

“Todo mundo falava que eu tava bêbada. Eu tentava explicar, mas não conseguia. Só apontava pro meu prédio. Uma moça me ajudou e o porteiro, que já sabia que sou diabética, me deu água com açúcar. Enquanto isso, as pessoas riam de mim.”
Nos últimos dias, o caso da morte de um dentista dentro de uma cela em Santa Catarina ganhou repercussão nacional após reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo.
A notícia gerou debate nas redes sociais, inclusive no Portal “Um Diabético”, ao levantar dúvidas sobre os sinais apresentados pelo homem, que aparentava estar embriagado, mas cujo exame toxicológico não identificou presença de álcool.
Segundo a perícia, foram detectadas substâncias relacionadas a medicamentos, entre eles remédios usados no tratamento do diabetes tipo 2. Embora a causa da morte ainda esteja sendo investigada, hipóteses como hipoglicemia ou hiperglicemia com hálito cetônico não foram descartadas.
O caso reacende o alerta: em alguns episódios, as alterações provocadas pelo diabetes no organismo podem simular o comportamento de uma pessoa alcoolizada. No entanto, se isso não for compreendido a tempo, pode levar a consequências graves.
“A hipoglicemia, que é a queda dos níveis de glicose no sangue, pode se manifestar com sintomas que se assemelham bastante à embriaguez, como confusão mental, fala arrastada, dificuldade de se equilibrar, sonolência e até comportamento desorientado,” afirma o endocrinologista Rodrigo Mendes.
Quando a glicose cai demais: hipoglicemia e seus efeitos no cérebro
A hipoglicemia ocorre quando os níveis de glicose no sangue caem abaixo de 70 mg/dL, conforme definido pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Essa condição é comum em pessoas com diabetes tipo 1, mas também pode acontecer em quem tem tipo 2 e usa insulina ou medicamentos que aumentam a produção do hormônio.
Durante a crise, o cérebro, que depende da glicose como principal fonte de energia, passa a funcionar de forma comprometida. Por isso, entre os sintomas mais comuns, estão:
- Fala desconexa ou arrastada
- Confusão mental
- Irritabilidade ou comportamento estranho
- Falta de equilíbrio
- Palidez
- Suor excessivo
- Tremores
De fora, a impressão pode ser de que a pessoa está embriagada, o que, infelizmente, costuma atrasar a ajuda adequada.
“Qualquer alteração metabólica pode afetar o funcionamento do cérebro. Isso se reflete diretamente no comportamento e nos sinais neurológicos. Em alguns casos, até o hálito da pessoa pode mudar e lembrar o cheiro do álcool. Por isso, é comum que uma crise de hipoglicemia seja confundida com embriaguez”, explica a médica endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Diabetes: quando a glicose sobe demais
No outro extremo, a hiperglicemia grave, quando não tratada, pode evoluir para uma condição conhecida como cetoacidose diabética especialmente em pessoas com diabetes tipo 1.
Nesse quadro, no entanto, o organismo começa a usar gordura como fonte de energia, produzindo cetonas, que acidificam o sangue. A consequência pode ser grave: confusão mental, sonolência, náuseas, vômitos, desidratação, respiração ofegante e hálito com odor adocicado ou semelhante a álcool. Essas manifestações estão descritas principalmente em guias clínicos da American Diabetes Association (ADA).
“A cetoacidose diabética é mais frequente em pessoas com diabetes tipo 1. No tipo 2, ela pode acontecer principalmente em quem depende de aplicações de insulina. Já em pacientes que usam apenas medicamentos orais, essa complicação é extremamente rara”, esclarece Denise Franco.
“A pessoa pode parecer desorientada, falar coisas sem sentido e até não saber onde está. Isso muda totalmente a percepção de quem observa e pode levar a interpretações erradas.”
Por que a confusão com embriaguez é perigosa
Quando os sintomas do diabetes descompensado são confundidos com o consumo de álcool, o risco de omissão de socorro ou de abordagem inadequada aumenta, e com ele, principalmente o risco de agravamento do quadro.
O caso do dentista em Santa Catarina é um exemplo que ainda está sendo apurado, mas que já chama a atenção para a importância do diagnóstico correto. Sem o cuidado necessário, o desfecho pode ser trágico.
Como identificar que não é embriaguez, e sim uma emergência?
Em situações de dúvida, é sempre melhor presumir que se trata de uma crise de diabetes. Veja o que fazer:
- Verifique se a pessoa tem identificação médica, como pulseira, colar, cartão ou sensor;
- Pergunte se ela tem diabetes;
- Evite fazer julgamentos ou acusações;
- Ligue imediatamente para o SAMU (192) e descreva os sintomas com clareza;
- Se a pessoa estiver consciente e conseguir engolir, ofereça algo com açúcar, como um suco ou balas;
- Se for hipoglicemia, agir rápido pode salvar a vida da pessoa. Se for hiperglicemia, o atendimento médico será essencial para evitar complicações.
Tanto a hipoglicemia quanto a hiperglicemia podem alterar o comportamento de forma significativa. Pessoas com diabetes podem parecer desorientadas, agressivas, sonolentas ou com fala arrastada e isso não é sinal de embriaguez, mas de que o corpo está em crise. O dr. Rodrigo Mendes, médico endocrinologista, reforça:
“Se você encontrar alguém com confusão mental, alteração de comportamento ou perda de consciência, é importante considerar que pode se tratar de uma emergência relacionada ao diabetes e saber identificar os sinais pode salvar vidas.“
Principais dicas se um caso acontecer próximo de você
O médico ainda traz informações importantes para quem estiver próximo de uma situação como essa.
Para quem convive com diabetes, algumas atitudes podem salvar vidas:
- Sempre tenha uma fonte rápida de glicose com você, como balas, sachê de mel ou tabletes de glicose;
- Use uma identificação médica (pulseira, colar ou cartão na carteira) informando que tem diabetes;
- Avise as pessoas próximas (colegas de trabalho, amigos, familiares) sobre o que fazer em caso de emergência;
- Monitore sua glicemia regularmente, especialmente antes de dirigir, praticar exercícios físicos ou dormir;
- Saiba reconhecer os sinais precoces de hipo ou hiperglicemia e trate o mais rápido possível.
- Em caso de hipoglicemia grave (com desmaio ou convulsão), pessoas próximas devem saber usar glucagon (medicação de emergência, se prescrita).
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