Quando Ana Paula Franco descobriu, ainda criança, que teria que conviver com o diabetes tipo 1 por toda a vida, não imaginava que décadas depois estaria repetindo a jornada ao lado da própria filha. Enfermeira e professora universitária, Ana foi diagnosticada com a condição aos cinco anos.
Já adulta, ela enfrentou um dos maiores sustos da vida: a filha Clara Franco, com apenas sete anos, também descobriu que seu pâncreas não produzia mais insulina.
“Eu cuido de pessoas com diabetes no dia a dia, mas nunca pensei que isso aconteceria dentro de casa.”, conta.
Hoje com nove anos, Clara lida com a mesma rotina de cuidados e monitoramento que a mãe já conhece tão bem. A diferença é que, enquanto Ana teve que aprender quase sozinha, Clara tem ao lado alguém que a entende em todos os sentidos.
“Se eu não consigo cuidar de mim, eu não consigo cuidar dela.”, reflete Ana.
Diagnóstico de diabetes tipo 1 precoce e rotina compartilhada
O diagnóstico da filha veio dentro de casa. A experiência e o olhar treinado de Ana permitiram que os sinais fossem percebidos cedo, o que evitou complicações mais graves, como a cetoacidose.
“Agradeci a Deus por ter reconhecido os sintomas rapidamente e por saber como agir. Mesmo assim, foi um choque.”, lembra.
Desde então, a rotina se transformou. As duas monitoram a glicose, aplicam insulina, adaptam refeições e enfrentam juntas os altos e baixos da condição. Em alguns momentos, até as crises de hipoglicemia acontecem ao mesmo tempo. “Já aconteceu das duas estarem com hipoglicemia juntas, e aí bate aquela dúvida: cuido de mim ou dela primeiro?”
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A cumplicidade e o cuidado mútuo se tornaram parte da rotina. “Ela já sabe quando algo não está certo comigo e corre para me ajudar. Me pergunta: ‘já mediu? Quanto deu?’ É uma cobrança mútua, mas saudável.”
Sistema público e os desafios do acesso
Um dos principais obstáculos enfrentados por Ana e Clara está relacionado ao acesso a insumos pelo SUS. Segundo Ana, apesar do fornecimento de materiais ser previsto em protocolo, os critérios muitas vezes são rígidos e não levam em conta a realidade de cada paciente.
“No DF, o sensor de glicose só é fornecido se a hemoglobina glicada estiver abaixo de determinado valor. Isso desconsidera completamente fatores como idade, fase da vida, hormônios, entre outros.”
Ela lembra que esse não é um problema isolado. “Vários pacientes passam pela mesma dificuldade. E é frustrante saber que mesmo fazendo tudo certo, ainda há barreiras burocráticas que impedem um tratamento mais eficaz.”
Maternidade, profissão e autocuidado
Com a chegada do diagnóstico da filha, Ana percebeu que começou a se descuidar de si mesma.
“Nunca esqueci de aplicar minha insulina. Mas depois que o foco virou ela, algumas vezes eu esquecia. Isso nunca tinha acontecido antes.”, admite.
Dividir o tempo entre cuidar da própria saúde e da filha não é fácil. E, como profissional da saúde, Ana sente o peso da responsabilidade. “Eu sei dos riscos. Então, cobro muito. Talvez até mais do que deveria. Às vezes penso que, se eu soubesse menos, cobraria menos dela.”
Ao mesmo tempo, Ana vê vantagens em sua formação. “Tenho segurança para orientar, explicar, montar uma alimentação saudável, e isso já fazia parte da nossa rotina. Inclusive, minha filha mais nova, que não tem diabetes, também segue essa alimentação.”
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O peso da empatia e o aprendizado diário
Ao acompanhar a filha nessa nova realidade, Ana também ressignificou sua própria história.
“Na minha infância, a informação era escassa. Ouvi coisas duras, inclusive de médicos, dizendo que eu não poderia ser mãe. Isso ainda acontece. No início do diagnóstico da Clara, encontramos profissionais que não estavam preparados. Eu chorei em casa, pensando como ainda existem profissionais assim.”
Hoje, ela leva essas experiências para a sala de aula. Ensina futuros enfermeiros sobre o impacto que palavras e atitudes podem ter na vida de um paciente. “Sempre digo: sejam diferentes. Mostro exemplos do que não fazer, porque vivi isso na pele.”
Clara, segundo a mãe, é uma criança surpreendente. “Ela amadureceu muito rápido. Não esconde nada, sempre avisa quando alguém oferece comida, pede permissão, segue as orientações. E eu não proíbo. Eu explico. Se quer comer doce, a gente calcula, ajusta a insulina. É um aprendizado constante.”
Mensagem para outras mães
Para quem está recebendo agora o diagnóstico de um filho com diabetes, Ana deixa um recado de esperança e incentivo: “No começo, é desesperador. Mas a vida continua e pode ser linda. Com informação e apoio, é possível ter uma rotina saudável e leve.”
Ana Paula Franco, hoje com mais de 30 anos de experiência no convívio com o diabetes, mostra que é possível enfrentar a condição com coragem, afeto e parceria. E que o amor de mãe — aliado ao conhecimento — é uma das ferramentas mais poderosas no cuidado com a saúde.