Um novo estudo da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos mostrou que a semaglutida, já conhecida no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, também pode trazer benefícios para adultos com diabetes tipo 1. O ensaio clínico, com duração de 26 semanas, reuniu 72 participantes que usavam bombas de insulina e tinham índice de massa corporal (IMC) acima de 30.
O portal “Um Diabético” conversou com a médica endocrinologista Melanie Rodacki, que afirmou que também é preciso pensar em pessoas com DM1, que convivem com a obesidade.
“A gente sabe que a obesidade acontece em pessoas com diabetes tipo 1 e a gente precisa de alternativas para tratar dessa condição nesse grupo.“
O que os pesquisadores fizeram
Os cientistas dividiram os voluntários em dois grupos. Um grupo recebeu injeções semanais de semaglutida, em doses de até 1 mg. O outro grupo usou placebo. Ambos continuaram usando seus sistemas de infusão de insulina durante todo o período. Daí então, a equipe acompanhou de perto três indicadores principais.
“O uso da semaglutida e de outras medicações para diabetes tipo 1 é um assunto de grande interesse também, não só para tratar a obesidade. Mas para melhorar o controle glicêmico, fazer um ajuste fino, reduzir oscilações da glicose.” – afirma Dra. Melanie
Primeiro, analisaram se os participantes passavam mais de 70% do tempo com glicose entre 70 e 180 mg/dL. Depois, verificaram se o tempo com glicemia abaixo de 70 mg/dL ficava abaixo de 4%. Por fim, avaliaram se cada pessoa conseguia perder pelo menos 5% do peso corporal.
O que o estudo da semaglutida descobriu com diabetes tipo 1?
No grupo que usou semaglutida, 36% das pessoas alcançaram os três objetivos. Por outro lado, no grupo placebo, ninguém atingiu o resultado completo. A diferença entre os grupos foi de 36 pontos percentuais, o que representa principalmente um avanço importante no tratamento.
Além disso, os pesquisadores observaram outras mudanças positivas. A hemoglobina glicada caiu em média 0,3 ponto percentual no grupo da semaglutida. Esse número indica uma melhora no controle da glicose ao longo do tempo.
O tempo com glicemia dentro da faixa ideal aumentou 8,8 pontos percentuais em comparação com o grupo que usou placebo. Além disso, a perda média de peso foi de 8,8 quilos em 26 semanas.
O que mais o estudo avaliou
Apesar dos bons resultados, os cientistas também observaram os efeitos adversos. Em ambos os grupos, ocorreram dois episódios de hipoglicemia grave. No entanto, nenhum caso de cetoacidose diabética foi registrado durante o estudo, o que traz um dado importante de segurança. No entanto, a médica endocrinologista entrevistada pelo “Um Diabético” traz alguns pontos de atenção sobre o uso da semaglutida para quem convive com diabetes tipo 1:
“É importante avaliar em pessoas com longa duração do diabetes tipo 1, que podem ter algum grau de uma complicação no estômago, que chama gastroparesia, que retarda o esvaziamento gástrico. A semaglutida é uma medicação que também faz isso. Então, nas pessoas com longa duração do diabetes, com diabetes tipo 1, que tem essa complicação, a gastroparesia, é especialmente importante a gente tomar cuidado, porque ela pode potencializar esse efeito.“
Além disso, a profissional cita a preocupação da alimentação. Dra. Melanie acredita que a ingestão alimentar pode diminuir com o uso do medicamento, o que pode prejudicar outro pilar do tratamento do diabetes: a alimentação. Ela diz que até esses efeitos estão sendo analisados em estudos.
“Uma preocupação potencial em pessoas com diabetes tipo 1 que têm obesidade para tratamento de obesidade com tirzepatida ou com semaglutida em doses mais altas é que essas pessoas reduzam tanto a ingestão alimentar e tanto também a ingestão de água que elas podem precipitar o risco de cetoacidose. Então, isso tem sido olhado nesses estudos e tem sido uma preocupação em relação a isso. Então, é muito importante ter realmente dados mostrando segurança.“
Vale lembrar que todos os participantes continuaram utilizando sistemas automatizados de insulina, o que reforça a comparação entre semaglutida e placebo.
O estudo foi financiado pela Breakthrough T1D e registrado no ClinicalTrials.gov com o número NCT05537233.
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