A obesidade já afeta grande parte da população brasileira e, segundo especialistas, o problema não para de crescer. A relação entre obesidade e diabetes tipo 2 se torna cada vez mais evidente, o que exige atenção redobrada com o estilo de vida, alimentação e acesso ao tratamento adequado.
Conversamos com o endocrinologista Fernando Valente, que acompanha de perto a evolução dos casos de obesidade e os impactos diretos na saúde da população com diabetes. O médico explica, de forma simples e direta, por que a obesidade se tornou um dos maiores desafios da saúde pública no país, especialmente para quem convive com o diabetes tipo 2.
Obesidade atinge a maioria das pessoas com diabetes tipo 2
A obesidade aparece com frequência entre quem tem diabetes tipo 2. Segundo o Dr. Fernando Valente, esse tipo de diabetes representa entre 85% e 90% dos casos registrados atualmente. E, dentro desse grupo, o excesso de peso é praticamente regra.
“Praticamente 80% a 90% dessas pessoas está acima do peso. Se não tem obesidade, tem sobrepeso. E tem aqueles que têm um IMC normal, mas acumulam gordura na barriga e apresentam resistência à insulina acima do ideal.”
Ou seja, mesmo quando o peso parece estar dentro do “normal”, a obesidade abdominal pode marcar presença e dificultar o controle glicêmico.
O Brasil vive uma epidemia silenciosa
A situação não é diferente quando olhamos para a população em geral. O número de pessoas acima do peso continua subindo ano após ano.
“Hoje temos quase 60% da população acima do peso. A maioria com sobrepeso, mas já temos entre 20% e 30% de pessoas com obesidade, dependendo da região do país.”
Esses dados preocupam, principalmente porque a obesidade está ligada a várias outras doenças crônicas, como hipertensão, apneia do sono, problemas cardiovasculares e, claro, diabetes tipo 2.
Falta de acesso trava o combate à obesidade
Apesar dos avanços na medicina, tratar a obesidade ainda é uma missão difícil para grande parte da população. O médico explica que, por muito tempo, existiam poucas opções realmente eficazes e seguras para auxiliar na perda de peso.
“Até pouco tempo atrás, tínhamos poucos medicamentos, com ação limitada e segurança duvidosa, que exigiam muito monitoramento.”
Hoje, novas medicações surgiram, mais eficazes e com menor risco de efeitos colaterais. No entanto, o problema agora é outro: o acesso.
“Temos medicações mais potentes e seguras, mas elas são caras e exigem um tratamento crônico, prolongado. Por isso, ainda estão fora do alcance de muita gente.”
Cirurgia bariátrica também encontra barreiras
Outro ponto citado pelo endocrinologista é a dificuldade de acesso à cirurgia bariátrica, considerada por muitos a principal alternativa para tratar casos mais graves de obesidade.
“Estamos perdendo o controle da situação, primeiro pela limitação no acesso à cirurgia, depois pelas ferramentas clínicas ainda pouco acessíveis.”
Ou seja, o problema não está apenas nos hábitos de vida, mas também nas barreiras estruturais do sistema de saúde, que dificultam o tratamento completo da obesidade.
O que fazer diante desse cenário?
Diante de tantos desafios, a recomendação dos especialistas é clara: começar pelas pequenas mudanças. Investir em uma alimentação mais saudável, praticar exercícios físicos com regularidade e buscar acompanhamento médico sempre que possível são medidas que podem fazer a diferença.
Mesmo quando o tratamento medicamentoso ou a cirurgia não estão disponíveis de imediato, mudanças de rotina ajudam a reduzir o peso, melhoram a sensibilidade à insulina e aumentam a qualidade de vida.
A obesidade não deve ser vista como culpa individual. Ela é uma doença multifatorial, com influência genética, emocional, hormonal e social. Por isso, precisa ser tratada com acolhimento, informação e acesso justo às soluções existentes.
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