Quem vive com diabetes tipo 1 já ouviu falar em cura mais de uma vez. No entanto, quase todas as pesquisas que tentam restaurar a produção de insulina exigem medicamentos para reduzir a imunidade, a chamada imunossupressão, o que aumenta o risco de infecções.
Nesse cenário, um estudo clínico conduzido pela Otsuka Pharmaceutical em parceria com a University of Illinois Chicagochama atenção por um diferencial importante: o transplante de células de porco no diabetes tipo 1 sem necessidade de enfraquecer o sistema imunológico.
O primeiro participante do estudo é Michael Revland, norte-americano diagnosticado há 25 anos. A história foi relatada por ele em entrevista ao podcast Diabetech, especializado em tecnologia e pesquisa em diabetes.
Seis meses após o procedimento, ele afirma ter reduzido quase pela metade sua necessidade diária de insulina.
O que é o transplante de células de porco no diabetes tipo 1
O estudo, chamado OPF 310, utiliza células de ilhotas pancreáticas de porcos recém-nascidos. Essas células são responsáveis pela produção de insulina e também de glucagon, hormônio que ajuda a evitar quedas bruscas da glicose.
Diferentemente de outros protocolos que usam células humanas e exigem medicamentos contínuos para reduzir a imunidade, esse transplante de células de porco no diabetes tipo 1 é feito por meio de encapsulamento celular e implante no omento, uma estrutura localizada atrás do estômago.
A cirurgia é laparoscópica e realizada sob anestesia geral. No entanto, o participante não precisa usar imunossupressores.
Segundo os pesquisadores, as células passam por um período de maturação estimado entre seis e 14 meses. Ou seja, elas não começam a funcionar plenamente logo após o implante.
A decisão de recusar outro transplante
Antes de entrar nesse estudo, Michael chegou a ser aprovado para outro protocolo que utilizava ilhotas humanas de doadores falecidos. No entanto, esse tratamento exigia imunossupressão contínua. Ele optou por não seguir adiante.
“Meu sistema imunológico precisava continuar intacto”, afirmou no podcast ao explicar a decisão.
Michael trabalha como paramédico aéreo e tem contato frequente com pacientes graves. Além disso, é pai de duas crianças. Segundo ele, o risco de infecções pesou na escolha.
O que mudou na prática após o transplante
Antes do procedimento, Michael utilizava cerca de 45 unidades de insulina por dia.
Em janeiro, registrou um dia com 15,98 unidades totais, mantendo 100 por cento do tempo em faixa, inclusive após consumir pizza.
No relato ao podcast, ele descreve uma mudança marcante.
“No dia 2 de janeiro acordei diferente. Minha glicose caiu sozinha de 133 para 119 sem correção. Não apliquei insulina para o café e não houve pico”, contou.
Ele relata que, além da redução da dose total, passou a observar menos oscilações e menos sintomas intensos de hipoglicemia.
“Eu sentia que meu corpo estava funcionando de novo”, afirmou durante a entrevista.
Nem tudo foi linear
Em novembro e dezembro, as necessidades de insulina voltaram quase aos níveis anteriores ao estudo. Segundo a equipe médica, isso pode ocorrer porque parte das células transplantadas morre nas primeiras semanas após o implante.
Essas oscilações são esperadas dentro da chamada fase de maturação celular, período em que as células ainda estão se adaptando ao organismo.
Hoje, seis meses após o transplante, ele segue usando bomba de insulina, mas com doses menores do que antes do estudo.
O que ainda não se sabe?
É importante destacar que se trata de um estudo experimental inicial e que os resultados referem-se ao primeiro participante.
Ainda não está claro se haverá independência total de insulina, se o efeito será duradouro ou se será necessário novo implante no futuro.
Segundo a American Diabetes Association, transplantes de ilhotas pancreáticas enfrentam desafios imunológicos importantes e ainda não fazem parte do tratamento padrão.
Portanto, o transplante de células de porco no diabetes tipo 1 ainda não é uma cura e não está disponível fora de pesquisa clínica.
O que isso significa para quem vive com diabetes tipo 1?
Para quem convive diariamente com contagem de carboidratos, ajustes de basal e medo de hipoglicemia, reduzir de 45 para cerca de 16 unidades de insulina representa uma mudança concreta na rotina. Menos correções significam menos intervenções e potencialmente menos variabilidade glicêmica.
Ainda assim, a insulina continua sendo indispensável. O avanço está na possibilidade de restaurar parte da função hormonal sem comprometer o sistema imunológico.Se os resultados se confirmarem em estudos maiores, o transplante de células de porco no diabetes tipo 1 pode representar uma alternativa intermediária entre tecnologia avançada e cura definitiva.
Aprendizado com esse caso
A ciência avança em etapas e raramente de forma linear. O caso de Michael não representa uma cura, mas indica que é possível reduzir a necessidade de insulina sem recorrer a medicamentos que enfraquecem a imunidade.Para quem vive há décadas com o diabetes tipo 1, cada avanço que reduz a carga do tratamento já é significativo.