A troca da insulina NPH pela glargina no SUS já começou e impacta pacientes em quatro estados brasileiros. O Ministério da Saúde iniciou o projeto-piloto no Paraná, na Paraíba, no Amapá e no Distrito Federal. Nesta primeira etapa, o sistema prioriza crianças e adolescentes até 17 anos com diabetes tipo 1 e pessoas com mais de 80 anos com diabetes tipo 1 ou tipo 2.
Essa mudança altera a rotina? Exige ajuste de dose? Reduz o risco de hipoglicemia?
Para esclarecer essas dúvidas, o Portal Um Diabético conversou com o endocrinologista Fernando Valente, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes.
O que muda com a troca da insulina NPH pela glargina no SUS
A insulina NPH atua como insulina basal, ou seja, mantém a glicose estável ao longo do dia e da noite. No entanto, ela tem ação intermediária e apresenta picos algumas horas após a aplicação.
Já a insulina glargina pertence ao grupo dos análogos de longa duração. Análogo significa que os pesquisadores modificaram a molécula da insulina humana para garantir ação mais estável e prolongada.
“A NPH tem ação intermediária. A glargina dura mais tempo e apresenta perfil mais previsível”, explica Fernando Valente.
Na prática, muitos pacientes com diabetes tipo 1 aplicam NPH duas ou três vezes ao dia. Por outro lado, a glargina costuma durar cerca de 21 a 22 horas. Portanto, em muitos casos, o paciente aplica apenas uma vez ao dia. Em algumas situações, o médico pode indicar duas aplicações.
Menos picos ao longo do dia
A principal diferença aparece no comportamento da insulina dentro do organismo.
A NPH produz picos de ação. Isso significa que ela age com mais intensidade em determinados horários. Como resultado, o paciente precisa organizar as refeições com rigor. Caso contrário, o risco de hipoglicemia aumenta.
“A NPH oscila mais. A glargina mantém ação mais constante”, afirma o endocrinologista.
Enquanto isso, a glargina libera insulina de forma contínua. Dessa forma, ela reduz oscilações bruscas da glicose, especialmente durante a madrugada. Além disso, estudos clínicos mostram menor incidência de hipoglicemia noturna quando médicos utilizam análogos de longa duração.
No entanto, o especialista alerta. “A glargina não é mais forte. Ela não aumenta potência. Ela oferece estabilidade.”
Ajuste de dose é obrigatório na transição
O paciente não deve simplesmente repetir a mesma dose que usava de NPH.
Quando a hemoglobina glicada, exame que mede a média da glicose nos últimos três meses, está controlada, o médico geralmente reduz cerca de 20% da dose total ao iniciar a glargina.
“Não fazemos troca direta unidade por unidade. Precisamos ajustar”, explica Valente.
Além disso, a mudança pode exigir revisão da insulina rápida ou ultrarrápida usada nas refeições. A NPH, por ter picos, muitas vezes ajudava a cobrir parte da glicose da alimentação. Com a glargina, que tem ação uniforme, o paciente pode precisar de ajuste maior na insulina das refeições.
Portanto, durante as primeiras semanas, o paciente deve medir a glicose com maior frequência.
O que muda na rotina diária?
A troca da insulina NPH pela glargina no SUS também modifica detalhes práticos.
Primeiro, a NPH exige homogeneização antes da aplicação. O paciente precisa movimentar o frasco ou a caneta até que o líquido fique uniforme. Caso contrário, a dose pode variar.
Já a glargina não exige esse preparo. Consequentemente, o risco de erro técnico diminui.
Além disso, a NPH impõe horários rígidos. O paciente precisa alinhar pico da insulina com horário da refeição. A glargina, por outro lado, permite maior flexibilidade. Ainda assim, o médico recomenda manter horário fixo diário.
Existe uma diferença importante. O paciente pode aplicar NPH junto com insulina regular na mesma seringa, desde que siga a ordem correta. Entretanto, ele não pode misturar glargina com insulina rápida na mesma aplicação. Portanto, alguns pacientes podem precisar de aplicações separadas.
Por que o SUS iniciou em quatro estados?
O Ministério da Saúde escolheu Paraná, Paraíba, Amapá e Distrito Federal para iniciar o projeto-piloto. Essa estratégia permite avaliar logística, adaptação clínica e impacto financeiro antes de ampliar nacionalmente.
Além disso, o SUS priorizou crianças, adolescentes e idosos porque esses grupos apresentam maior risco de hipoglicemia grave. Portanto, oferecer uma insulina mais estável pode trazer benefício clínico relevante.
O que dizem as evidências científicas
Diretrizes internacionais, como as da American Diabetes Association, indicam que análogos basais de longa duração apresentam menor risco de hipoglicemia em comparação com a NPH.
Entretanto, nenhum tipo de insulina elimina a necessidade de acompanhamento médico.
“A vida de quem tem diabetes já exige atenção constante. Se reduzimos o risco de hipoglicemia, melhoramos a segurança”, afirma Valente.
Ainda assim, cada paciente responde de maneira diferente. Por isso, o acompanhamento individual continua essencial.
