Para quem convive com diabetes tipo 1 hoje, sensores de glicose, canetas de insulina e aplicativos fazem parte da rotina. No entanto, em 1950, quando Dona Carmen recebeu o diagnóstico aos 19 anos, essas ferramentas simplesmente não existiam. Ainda assim, ela construiu uma trajetória que a coloca, aos 95 anos de idade, como a brasileira com mais tempo de diabetes tipo 1 em acompanhamento conhecido no país, com 75 anos de convivência com a condição.
Nesse contexto, sua história ajuda a responder uma dúvida recorrente entre pessoas com diabetes e familiares: é possível envelhecer bem mesmo tendo iniciado o tratamento em um período com poucas opções de cuidado e controle da glicose?
Diagnóstico em uma época sem monitoramento da glicose

O diagnóstico de Dona Carmen aconteceu em um momento em que o tratamento do diabetes tipo 1 era extremamente limitado. Não existiam glicosímetros, sensores de glicose nem exames como a hemoglobina glicada. Na prática, médicos e pacientes avaliavam o controle principalmente por sintomas e testes de urina, que indicavam apenas alterações mais graves.
Ela ficou internada por cerca de um mês após o diagnóstico. Naquele período, se preparava para o vestibular de medicina, mas precisou interromper os estudos. Por isso, optou por cursar pedagogia, iniciando uma trajetória marcada por escolhas conscientes e adaptação constante.
“Quando me disseram que era diabetes, achei que fosse algo pior. Pensei: então é só isso”, relembra.
Essa reação mostra como ela passou a lidar com a doença de forma direta e prática, sem negar a gravidade, mas sem permitir que o medo paralisasse suas decisões.
Setenta e cinco anos acompanhando a evolução do tratamento
Ao longo de sete décadas e meia, Dona Carmen acompanhou todas as grandes transformações no tratamento do diabetes tipo 1. Inicialmente, utilizou seringas de vidro e insulinas com ação pouco previsível. Além disso, viveu por muitos anos sem educação estruturada em diabetes.
Com o passar do tempo, surgiram novas formulações de insulina, métodos mais seguros de aplicação e glicosímetros portáteis. Mais recentemente, tecnologias como sensores de glicose passaram a fazer parte do cuidado de muitas pessoas com diabetes. Portanto, sua trajetória se confunde com a própria história da evolução do tratamento do diabetes no Brasil.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, esses avanços melhoraram o controle glicêmico e reduziram complicações. Ainda assim, o benefício depende de acesso, orientação adequada e adesão ao tratamento ao longo da vida.
Educação em diabetes como base da longevidade
Mesmo sem ter recebido educação formal em diabetes no início do diagnóstico, Dona Carmen construiu conhecimento a partir da observação do próprio corpo. Ela ajustava rotinas, reconhecia sinais de alerta e aprendia com a experiência diária. Com o tempo, esse aprendizado se transformou em um legado.
No último Dia Mundial do Diabetes, Dona Carmen apresentou toda a edição especial do DiabetesCast, ao vivo, com foco em educação em diabetes. A participação reforçou a importância do conhecimento contínuo, inclusive na velhice. Além disso, no ano passado, sua história foi transformada em livro, ampliando o alcance dessa vivência acumulada ao longo de décadas.
Especialistas destacam que a educação em diabetes é um dos pilares do tratamento. Estudos mostram que pessoas bem informadas tendem a reconhecer melhor riscos, ajustar o cuidado e buscar ajuda no momento certo.
Emoções também interferem no controle glicêmico
Ao longo da vida, Dona Carmen enfrentou perdas familiares importantes. Em momentos de luto, como a morte de uma bisneta por câncer, ela percebeu piora no controle da glicemia. Segundo ela, a glicose ficou desorganizada durante esse período.
Esse relato está alinhado a estudos observacionais que mostram a influência do estresse emocional nos níveis de glicose. No entanto, a resposta varia de pessoa para pessoa. Por isso, o acompanhamento individualizado e a atenção à saúde emocional seguem sendo partes essenciais do tratamento do diabetes tipo 1.
A família atribui a ausência de complicações graves à disciplina diária, mantida mesmo em períodos difíceis. Ainda assim, Dona Carmen sempre reforça que o cuidado precisa ser retomado dia após dia, sem culpa quando algo sai do esperado.
Envelhecer com diabetes tipo 1 de forma realista
Hoje, aos 95 anos, Dona Carmen mantém autonomia, anda de bicicleta e participa de atividades cotidianas. Enquanto isso, continua falando sobre diabetes com naturalidade e sem idealizações. Ela reconhece oscilações glicêmicas, dificuldades e a necessidade constante de ajustes no cuidado.
Especialistas explicam que sua história não representa uma regra. Fatores como genética, acesso ao sistema de saúde e contexto social influenciam diretamente o envelhecimento com diabetes. Ainda assim, sua trajetória oferece aprendizados práticos para quem convive com a condição:
A educação em diabetes precisa ser contínua ao longo da vida.
O cuidado deve ser constante, mesmo quando o controle não é perfeito.
A tecnologia ajuda, mas não substitui o autocuidado diário.
O envelhecimento com diabetes exige adaptação e acompanhamento regular.
Um marco vivo da história do diabetes no Brasil
Completar 95 anos de idade e 75 anos de diagnóstico transforma Dona Carmen em um marco vivo da história do diabetes tipo 1 no país. Ela atravessou um período com poucas possibilidades de tratamento, acompanhou a evolução científica e segue mostrando que viver muito com diabetes é possível.
Sua história não promete facilidade. No entanto, oferece algo fundamental para quem vive com diabetes hoje: informação baseada na experiência, realismo e uma perspectiva concreta de futuro.
