Receber o diagnóstico de diabetes tipo 1 ainda na infância costuma vir acompanhado de alertas, restrições e dúvidas sobre o futuro. Nesse contexto, muitas crianças escutam que determinados sonhos não serão possíveis. No entanto, a trajetória do lutador norte-americano Jon Kunneman mostra que esses limites podem ser questionados.
Diagnosticado aos 11 anos, Kunneman ouviu ainda no pronto-socorro que dificilmente poderia se tornar atleta profissional. Anos depois, ele soma um cartel invicto no MMA profissional e persegue um objetivo histórico: ser a primeira pessoa com diabetes tipo 1 a vencer uma luta no Ultimate Fighting Championship (UFC).
A importância dos “primeiros” para quem convive com diabetes
Para quem vive com diabetes tipo 1, referências importam. Atletas que romperam barreiras ajudam a transformar o “você não pode” em “é possível”. Ao longo dos anos, nomes como Mark Andrews, Lauren Cox, Gary Hall Jr. e Gary Forbes mostraram que o alto rendimento não está fora do alcance de quem precisa monitorar glicemia diariamente.
No entanto, enquanto isso já acontece em esportes como futebol americano, basquete e natação, o MMA ainda não tinha um caminho claro para atletas com diabetes tipo 1. É justamente esse espaço que Kunneman tenta abrir.
Do silêncio ao impacto na comunidade

Durante muitos anos, Kunneman manteve o diagnóstico em sigilo, inclusive dentro do próprio time. Ainda assim, episódios de hipoglicemia e hiperglicemia já faziam parte da rotina de treinos e lutas. Em uma semana decisiva de combate, ele enfrentou uma hipoglicemia grave seguida de uma hiperglicemia importante, bateu o peso e venceu a luta.
Posteriormente, ao compartilhar sua história em um fórum online, recebeu mensagens de pessoas com diabetes tipo 1 que relataram sofrimento emocional intenso. Nesse momento, ele percebeu que sua trajetória poderia ter impacto além do esporte.
Segundo o atleta, embora o diabetes tipo 1 traga desafios constantes, a condição também exige disciplina, planejamento e resiliência. Nesse sentido, essas habilidades acabam se tornando parte da preparação mental para o alto rendimento esportivo.
Um episódio extremo e a virada no cuidado
A mudança mais significativa na forma como Kunneman passou a lidar com o diabetes ocorreu após um episódio grave durante uma escalada em alta altitude, no Colorado. Após consumir, sem perceber, uma bebida com alto teor de carboidratos, ele desenvolveu uma hiperglicemia acima de 400 mg/dL, acompanhada de cetonas elevadas, um quadro compatível com risco de cetoacidose diabética.
Embora tenha evitado internação hospitalar, o episódio deixou marcas físicas e emocionais. A partir desse momento, ele decidiu abandonar estimativas e passou a utilizar monitorização contínua da glicose (CGM), ferramenta que hoje considera essencial para os treinos intensos e prolongados.
Monitorização contínua e ajustes na rotina de treinos
O uso do CGM permitiu que o atleta identificasse tendências de queda ou elevação da glicose antes que os sintomas surgissem. Isso é especialmente relevante em esportes de alta intensidade, como o MMA, nos quais interrupções inesperadas podem comprometer o desempenho ou colocar a saúde em risco.
Além disso, Kunneman relata ajustes estratégicos, como evitar grandes quantidades de insulina ativa antes dos treinos e adaptar o tratamento das hipoglicemias conforme a intensidade da atividade. Em sessões mais pesadas, por exemplo, ele consome quantidades maiores de carboidratos para evitar novas quedas durante os rounds.
Corte de peso: um desafio ainda maior com diabetes tipo 1
O corte de peso no MMA é uma prática conhecida, baseada principalmente em manipulação hídrica. Para quem convive com diabetes tipo 1, esse processo exige cuidados adicionais. Nos dias finais antes da pesagem, Kunneman reduz drasticamente a ingestão de carboidratos e, consequentemente, ajusta de forma significativa as doses de insulina basal.
Segundo o lutador, não existem protocolos consolidados sobre corte de peso seguro para atletas com diabetes tipo 1. Dessa forma, grande parte do aprendizado veio da tentativa, erro e observação cuidadosa dos próprios dados glicêmicos, sempre com risco envolvido.

Barreiras regulatórias e o uso de insulina no esporte profissional
Outro obstáculo enfrentado por Kunneman está fora do octógono. Cada comissão atlética possui regras próprias sobre o que pode ou não ser levado para a luta. Em alguns locais, não é permitido entrar com fontes de carboidrato ou dispositivos de monitorização, o que aumenta o risco em caso de hipoglicemia.
Além disso, a insulina é classificada como substância proibida em competições esportivas, exceto quando há autorização médica formal. Para competir em eventos ligados ao UFC, Kunneman precisou apresentar documentação extensa comprovando o diagnóstico desde a infância e a necessidade vital do uso da insulina, obtendo assim uma isenção terapêutica.
Estigma, resistência e saúde mental
Mesmo com autorização médica, o estigma ainda existe. Em ambientes altamente competitivos, interromper um treino por alteração glicêmica pode ser interpretado como fraqueza. No entanto, Kunneman destaca que ignorar esses sinais pode levar a emergências graves.
Nesse contexto, ele busca compensar treinos interrompidos em outros momentos, não como punição, mas como estratégia mental para manter a confiança e o senso de responsabilidade com a própria saúde.
O próximo passo e o impacto para futuras gerações
Com um cartel invicto e todas as vitórias por nocaute ou finalização no primeiro round, Kunneman aguarda novas oportunidades, seja por meio do Contender Series ou de uma convocação direta para o UFC. O objetivo é claro: conquistar a primeira vitória de um atleta com diabetes tipo 1 na organização.

Para crianças e adolescentes recém-diagnosticados que sonham com esportes de alto rendimento, a mensagem do lutador é direta: será necessário mais disciplina, mais organização e mais atenção à saúde. Ainda assim, o caminho é possível.
Referências e fontes:
- diaTribe – Entrevista com Jon Kunneman conduzida por Derek Helm
https://diatribe.org - American Diabetes Association (ADA) – Type 1 Diabetes Overview
https://diabetes.org - International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes (ISPAD) – Exercise and Type 1 Diabetes Guidelines
https://www.ispad.org
