A criação de uma política pública para diabetes tipo 1 em uma cidade do interior de Minas Gerais começou dentro de casa, após o diagnóstico de uma criança ainda pequena. Nesse contexto, a vivência de uma mãe se transformou em mobilização social, articulação com o poder público e, portanto, em mudanças concretas no acesso ao tratamento e na rotina escolar. Em Passa Quatro, a iniciativa passou a impactar diretamente crianças e cuidadores.

Do diagnóstico ao choque com a falta de estrutura
O diagnóstico de diabetes tipo 1 chegou quando a filha tinha apenas dois anos. Além do impacto emocional, a família se deparou com um sistema despreparado para lidar com o cuidado infantil.
“Foi um luto de filho vivo. A gente perde a vida que imaginou e precisa aprender tudo de novo”, relata.
No entanto, rapidamente ficou claro que a dificuldade não era isolada. Pelo contrário, a ausência de protocolos, tecnologia e informação refletia uma lacuna estrutural no cuidado público ao diabetes tipo 1.
O sensor de glicose como divisor de águas
Ao conhecer o sensor de monitoramento contínuo de glicose, a rotina da família mudou. A tecnologia trouxe mais segurança e previsibilidade. Além disso, reduziu o medo constante de episódios de hipoglicemia e hiperglicemia.
“O sensor devolveu algo básico para a nossa família: segurança. Ainda assim, ele mostrou que esse cuidado não podia ser privilégio de quem consegue pagar”, afirma.
Por outro lado, o alto custo mensal inviabilizava o uso contínuo. Nesse cenário, os gastos com insumos comprometeram rapidamente o orçamento familiar.
Quando a dor vira dado e argumento técnico
Diante dessa realidade, a estratégia foi transformar a vivência em informação organizada. Durante quase um ano, a mãe registrou glicemias, episódios de descontrole e custos do tratamento.
“A dor precisava virar dado. Só assim deixava de ser um pedido emocional e passava a ser uma necessidade comprovada”, explica.
Portanto, o material apresentado à Secretaria Municipal de Saúde se tornou a base para discutir a criação de uma política pública para diabetes tipo 1, com critérios técnicos e impacto coletivo.
Uma política pública que vai além do sensor
Desde o início, a proposta não se limitou à entrega do sensor de glicose. Pelo contrário, o foco foi o cuidado integral. Isso incluiu educação em diabetes, acompanhamento multiprofissional e protocolos claros.
“Não adianta entregar tecnologia sem ensinar a usar e sem olhar para a criança como um todo”, destaca.
Atualmente, o atendimento envolve endocrinologia, nutrição especializada, farmácia e psicologia. Dessa forma, o tratamento passou a ser contínuo e organizado dentro da rede pública.
Inclusão escolar como parte do tratamento
Outro eixo central da política pública foi a educação. Antes disso, a falta de preparo das escolas gerava insegurança para professores e famílias. Como consequência, muitas crianças tinham sua rotina escolar comprometida.
“A educação inclusiva não existe sem segurança. A escola precisa saber o que fazer”, afirma.
Nesse contexto, uma lei municipal garantiu capacitação contínua dos profissionais. Além disso, o diabetes passou a integrar o calendário oficial da rede de ensino.
Resultados clínicos e impacto na vida das famílias
Os efeitos da política pública são mensuráveis. A hemoglobina glicada média das crianças atendidas caiu cerca de 2,5 pontos. Portanto, houve melhora significativa no controle glicêmico.
Além disso, os alarmes dos sensores ajudaram a prevenir episódios graves. “Os pais voltaram a dormir. Parece simples, mas isso muda tudo”, resume.
Enquanto isso, as crianças passaram a ser vistas como alunos, não apenas como pacientes.
Por que o município faz diferença no cuidado ao diabetes
A experiência mostra que a vida acontece no município. É ali que o diálogo com vereadores, secretarias e escolas se torna mais direto. Por isso, as respostas tendem a ser mais rápidas e adaptadas à realidade local.
“Se a gente não leva a demanda, ela não chega. O vereador precisa ouvir quem vive o problema”, avalia.
Um modelo que começa a inspirar outras cidades
Com os resultados, o projeto passou a ser procurado por outros municípios. Nesse movimento, protocolos e fluxos começaram a ser compartilhados.
“Eu não planejei virar referência. Ainda assim, as pessoas viram que funcionava”, conta.
Atualmente, a cidade discute a ampliação do atendimento e, além disso, novos protocolos de triagem para evitar diagnósticos tardios.
Quando cidadania vira política pública de saúde
A trajetória mostra que não é preciso ocupar cargos públicos para promover mudanças estruturais. Informação, dados e persistência podem, portanto, transformar uma experiência individual em política pública.
“Se o problema é real e urgente, não dá para esperar. É preciso agir”, conclui.

