Aos oito anos, Maria Eduarda Pereira Dantas recebeu um diagnóstico que mudou a vida dela e da família. O medo e a incerteza tomaram o lugar da infância leve e despreocupada. O que ela não sabia é que aquele mesmo dia seria o início de uma nova história, feita de coragem, fé e propósito.

Hoje, aos 26 anos, a menina que um dia quis esconder o diabetes tipo 1 é uma das vozes mais fortes do país sobre o tema.
À frente do perfil Pâncreas Artificial, Duda se tornou referência em informação, acolhimento e inspiração para milhares de pessoas. Prestes a se formar médica, ela quer cuidar de quem vive com diabetes da mesma forma que um dia sonhou ser cuidada: com empatia e verdade.
O dia em que tudo mudou
Era Páscoa de 2008. Duda estava magra, sentia muita sede e acordava várias vezes à noite para ir ao banheiro. Os pais, que trabalham na área da saúde, desconfiaram de que algo não estava bem. A mãe comprou um glicosímetro e mediu a glicemia da filha. O resultado foi “HI”, acima de 600 mg/dL.
“Minha mãe chorava tanto que mal conseguia enxergar o volante. Foi desesperador”, lembra Duda.
No dia seguinte veio a confirmação: diabetes tipo 1. O acolhimento, no entanto, veio de um lugar inesperado.
“A farmacêutica que nos atendeu também tinha diabetes tipo 1. Ela pegou na nossa mão e disse: vai dar tudo certo. Ela foi o primeiro anjo da nossa história.”
O silêncio e a vergonha
Durante anos, Duda quis esconder o diagnóstico. Evitava falar sobre o assunto. Tinha vergonha.
“Eu achava que ter diabetes era o fim. Queria ser igual às outras crianças.”
Anos depois, a mãe encontrou uma carta escrita por ela ainda menina. Era um pedido a Deus para acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho.

“Demorei muito para entender que o diabetes não era um castigo, mas parte de quem eu sou. E que o conhecimento era o que me libertaria da vergonha.”
Quando o conhecimento virou força
A virada aconteceu na adolescência. Duda percebeu que, para viver bem, precisava entender sobre a condição. Começou a estudar sozinha sobre glicemia, alimentação e insulina.

“Foi quando percebi que quanto mais eu sabia, mais segura eu me sentia. E aos poucos o medo foi dando lugar à confiança.”
Em 2019, ela criou o perfil Pâncreas Artificial. A ideia inicial era compartilhar informações sobre o sistema de pâncreas artificial, mas o conteúdo foi ganhando outro sentido. “Percebi que as pessoas não sabiam o básico. Então comecei a falar sobre o simples. E o simples muda a vida.”

Hoje, o perfil soma mais de 200 mil seguidores no Instagram e 170 mil inscritos no YouTube.
“Falo sobre o dia a dia, sobre as falhas, sobre a realidade. E é isso que aproxima as pessoas. Elas se veem em mim.”
De administradora à futura médica
Antes da medicina, Duda cursava Administração. Mas entre uma aula e outra, se via estudando fisiologia e hormônios.
“Eu estava gastando mais tempo lendo sobre o corpo humano do que estudando para as provas da faculdade. Foi aí que percebi: é isso que eu quero fazer da minha vida.”
Hoje, prestes a se formar médica, ela quer seguir em Clínica Médica e Endocrinologia.
“Não quero ser a médica que o paciente tem medo de procurar. Quero ser a médica que acolhe, que entende, que ajuda.”

Durante a graduação, Duda participou de dois intercâmbios em um hospital afiliado a Harvard, nos Estados Unidos.
“Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Aprendi que quanto mais a gente estuda, mais entende que ainda há muito o que aprender. Os melhores profissionais que conheci são, acima de tudo, humildes.”
Ela também apresentou um trabalho no congresso da Associação Americana de Diabetes, em Boston, um momento que ela descreve como “a realização de um sonho”.

Um amor que aprende junto
Há dez anos, Duda divide a vida com Danilo Dantas Araújo, estudante de Nutrição. Eles se conheceram ainda no ensino médio, em uma festa da turma.
“Eu já paquerava ela pelo Instagram há muito tempo, por curtidas”, brinca Danilo.

Ele descobriu o diabetes de um jeito que nunca vai esquecer.
“A gente estava na área de lazer do prédio e, de repente, ela falou com a voz meio embolada: tô com hipoglicemia, preciso de um doce. Eu saí correndo sem entender nada. Só depois que ela melhorou é que me explicou o que estava acontecendo.”
A partir daquele dia, Danilo decidiu aprender tudo o que pudesse.
“Nunca senti o peso de nada. Sempre vi o diabetes como uma característica dela. Ela é Duda antes do diabetes.”
Com o tempo, ele passou a fazer parte ativa da rotina dela.
“Quando falta insulina, sou eu quem levanta pra pegar. Quando a glicemia cai, eu corro atrás do que for preciso. Foi natural. Eu quis estar perto, entender e fazer parte. Se posso deixar a rotina dela mais leve, eu faço.”
O olhar de quem caminha ao lado
“O que mais me admira nela é a vontade de ajudar as pessoas. Ela não tem obrigação de fazer o que faz, mas mesmo assim se doa todos os dias”, diz Danilo.
Ele lembra de momentos em que se emocionou com a força dela.
“Um dia, a glicemia dela estava oscilando muito. Podia ter ficado em casa, mas foi para o hospital mesmo chorando. Voltou sorrindo. É impressionante ver a força que ela tem.”
Para Danilo, Duda é o exemplo vivo de resiliência.
“Ela sente, chora, mas não para. Mesmo diante de tudo, segue em frente. É imparável, mesmo com diabetes. E isso me inspira todos os dias.”
O propósito que guia
Entre as muitas mensagens que recebe, uma ficou guardada no coração.
“Uma mulher escreveu dizendo que eu não trouxe a cura do diabetes, mas que o meu perfil curava um pouco da dor dela todos os dias. Eu nunca esqueci essa frase.”
Hoje, Duda olha para a própria história com gratidão.
“Eu não escolhi ter diabetes, mas escolhi o que fazer com ele. O diabetes me ensinou sobre empatia, disciplina e propósito.”
A menina que um dia quis se esconder agora fala em voz alta. E o que ela diz alcança milhares de pessoas.

Duda mostra que viver com diabetes não é sobre perfeição, mas sobre caminho. É sobre seguir com leveza, coragem e amor.