O tempo passa e deixa marcas, algumas no corpo e outras na alma. Mas, no caso de Carmen H. Wills, 94 anos, ele deixou também uma mensagem de fé, disciplina e esperança. Diagnosticada com diabetes tipo 1 em 1950, quando ainda se usavam seringas de vidro e não havia sequer fitas reagentes para medir glicose, Dona Carmen completou 75 anos convivendo com a condição e agora tem sua trajetória registrada em um livro emocionante, que já nasce como referência de superação.
“Olho para trás e me custa acreditar que tanto tempo já passou. O diabetes andou comigo como parte da minha identidade. O que mais me vem à mente é sentir o cuidado de Deus sobre minha vida, nos bons momentos e especialmente nas provações”, contou ela, com a serenidade de quem aprendeu a transformar o desafio em propósito.
Nascida em Santa Catarina e formada professora, Carmen venceu um câncer de mama, criou duas filhas, acompanhou o crescimento de netos e bisnetos e virou inspiração para milhares de pessoas que convivem com o diabetes. Ela também foi reconhecida pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) como a primeira pessoa no país a receber a medalha por 75 anos de diagnóstico, uma conquista histórica.
Uma história que virou livro
A vida de Carmen ganhou as páginas da biografia “Carmen H. Wills — 75 anos superando o diabetes tipo 1”, escrita pela jornalista Letícia Martins, fundadora da Momento Saúde Editora e criadora da revista Momento Diabetes. A obra reúne relatos da própria Carmen, de familiares, amigos e profissionais da saúde, e reconstrói uma jornada que atravessou gerações e revoluções tecnológicas, das insulinas de origem animal aos sensores de glicose de última geração.
“Conheci a história da Carmen em 2016 e desde aquele momento senti que ela representava esperança. Quando percebi que ela estava prestes a completar 75 anos de diagnóstico, perguntei se aceitaria ser biografada. E ela, com seu jeito doce e incrédulo, respondeu: ‘Se você acha que minha história pode ajudar outras pessoas, eu aceito’”, contou Letícia.
Durante quase um ano, a autora mergulhou em entrevistas, documentos e memórias familiares. Entre risadas, silêncios e lembranças, Carmen revisitava sua história com leveza. Em um dos momentos mais marcantes, ela olhou um exame antigo que marcava 338 mg/dL e brincou: “Nossa, não sei como não morri!”.
“Ela viveu todas as transformações do tratamento do diabetes sem perder o humor. Essa combinação de fé, disciplina e amor é o que torna sua história tão poderosa”, completa Letícia.
“Sim, Diabético” – Vidas Transformadas
Em 2021, eu também tive a oportunidade de registrar de forma documental, em vídeo, a história da Dona Carmen. Ela foi uma das protagonistas do projeto Sim, Diabético – Vidas Transformadas, série produzida pelo Um Diabético para mostrar o impacto do diagnóstico e as histórias de quem aprendeu a viver bem com a condição.
Assim, esse registro audiovisual mostra uma mulher que, mais do que viver com diabetes, aprendeu a transformar o tempo em aprendizado e inspiração.
Lições de uma vida inteira
Ao longo da biografia, Carmen fala sobre como aprendeu a lidar com o diabetes sem medo. “Para quem acaba de receber o diagnóstico, eu digo: não se assuste. Busque boa orientação médica, eduque-se e escolha viver com alegria. As mudanças vão melhorar o seu bem-estar”, aconselha.
O livro, que recebe o Selo Memoráveis da editora Momento Saúde e tem patrocínio do FreeStyle Libre, será lançado em três eventos: dia 15 de outubro, em São Paulo; dia 19 de outubro, durante o Diabetes ON, no Centro de Convenções Rebouças; e dia 22 de novembro, no Café Fábula, em Taubaté, cidade natal da autora.
Mais do que um livro, um legado
A obra chega como um presente para a comunidade de pessoas com diabetes e um lembrete para todos: é possível viver bem, mesmo diante de uma condição crônica. “Carmen é um exemplo vivo de que o diabetes não limita sonhos, nem impede conquistas”, afirma Letícia Martins.
Assim, a história de Carmen Wills ultrapassa o campo da saúde. É um retrato de amor, fé e humanidade. Um lembrete de que envelhecer pode ser doce, mesmo com o diabetes.
Entre as páginas do livro, há mais que dados e recordações. Há o testemunho de uma mulher que se reinventou, acreditou na ciência e nunca deixou de sorrir.
“Viver nem sempre é doce”, escreve Letícia na conclusão da obra, “mas vale a pena.”
E Carmen é a prova viva disso.