A entrevista recente de Lance Bass, ex-integrante da banda N’Sync, colocou holofotes sobre um tipo de diabetes pouco falado, mas que afeta milhares de pessoas no Brasil: o LADA sigla para Latent Autoimmune Diabetes in Adults. Também conhecido popularmente como tipo 1.5, o LADA é frequentemente confundido com outros tipos de diabetes, o que atrasa o tratamento adequado e pode trazer complicações sérias.
Foi o que aconteceu com Liliam Cristina Rodrigues da Silva, 43 anos, funcionária pública e assistente administrativa em uma unidade de saúde. Diagnosticada com diabetes aos 23, ela passou por diferentes interpretações clínicas.
“No começo, acharam que era tipo 2, mas os remédios não controlavam. Me internaram por sete dias e decidiram que era tipo 1. Foram 12 anos tratando assim, até que, com a troca de médico no SUS, me pediram novos exames. Aí descobri que era LADA”, conta.
A resposta parcial aos tratamentos, combinada com a progressão lenta da doença, ajudou a confirmar que se tratava da forma autoimune que aparece na vida adulta.
“Antes, quando a glicose desregulava, a culpa era sempre minha. Hoje, meu médico me acolhe. Diz que é mais difícil mesmo e que está comigo. Isso faz toda a diferença.”
Apesar do acompanhamento, Liliam já convive com complicações: “Tenho neuropatia autonômica cardíaca e vou passar por angioplastia. É uma doença traiçoeira. Tem dias em que durmo com glicemia boa e acordo com ela nas alturas.”
A história de Aline de Souza Fleury dos Reis Espíndola, 32 anos, freelancer, reforça principalmente a dificuldade do diagnóstico correto.
“Tive diabetes gestacional aos 25. Depois sumiu. Aos 29, comecei a ter sintomas: visão turva, dormência nas mãos, hipos e hipers constantes. O médico disse que era tipo 2 e passou Metformina e Gliclazida. Eu fazia tudo certinho, comia bem, me exercitava e nada funcionava.”
Aline mesma passou a desconfiar. Procurou um endocrinologista particular, que pediu exames e confirmou: LADA. “Fiquei em choque, mas também aliviada. Finalmente sabiam o que eu tinha.” O uso de insulina foi um desafio.
“Dá medo, claro. Mas fui entendendo. Passei a ler rótulos, controlar a alimentação e ajustar a rotina. Tenho uma filha de 7 anos, estou grávida de novo e a diabetes desregula muito. Já fui internada nessa gestação. O protocolo foi ajustado para evitar o uso de insulina de ação rápida, porque tive episódios frequentes de hipoglicemia.”
Apesar dos riscos, ela segue firme.
“Tive que mudar hábitos. Cuido não só de mim, mas pelas minhas filhas. É difícil, mas a gente segue.”
O que é o LADA?
A endocrinologista Dra. Solange Travassos explica que O LADA é uma forma autoimune de diabetes que surge na vida adulta. O corpo passa a atacar, aos poucos, as células que produzem insulina. No entanto, ele se comporta como o tipo 2, mas, com o tempo, exige insulina, como no tipo 1. Por isso, é chamado popularmente de tipo 1.5.
Ela reforça que o erro diagnóstico é frequente.
“Muitos profissionais ainda associam o tipo 1 apenas à infância. Mas o tipo 1 pode surgir em qualquer idade. Estima-se que até 40% dos adultos com mais de 30 anos diagnosticados como tipo 2 podem, na verdade, ter LADA.”
A médica chama atenção para um ponto crítico do LADA: sua fase inicial enganosa.
“A pessoa com LADA costuma responder bem ao tratamento do tipo 2 por pouco tempo — geralmente alguns meses. Depois disso, a glicemia começa a subir, mesmo com boa adesão ao tratamento. Se a insulina não for introduzida, o paciente pode evoluir para um quadro de cetoacidose diabética, com risco de morte. É comum a pessoa passar anos com tratamento inadequado, o que leva à glicemia cronicamente descontrolada e, com o tempo, ao desenvolvimento de complicações como retinopatia, neuropatia, problemas renais e cardiovasculares.”
Como diagnosticar o LADA?
A confirmação do LADA depende de exames específicos:
- Dosagem de anticorpos autoimunes: anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina e anti-ZnT8
- Dosagem do peptídeo C: avalia a produção de insulina
- Avaliação clínica: pacientes magros, com início tardio da doença, sem histórico familiar de diabetes tipo 2
“Esses exames não são amplamente disponíveis no SUS, o que contribui para o subdiagnóstico”, destaca a médica.
Quando desconfiar?
- Glicemia descontrolada mesmo com alimentação adequada e uso de medicamentos orais;
- Necessidade precoce de insulina;
- Perda de peso inexplicada;
- Ausência de fatores clássicos do tipo 2, como obesidade ou histórico familiar;
- Evolução rápida para descompensação mesmo com tratamento adequado.
Por que o diagnóstico certo importa?
Receber o diagnóstico correto muda principalmente o tratamento. Mas tamba forma como o paciente se enxerga. “Quando me disseram que era LADA, passei a me sentir compreendida”, diz Aline. Liliam completa: “Eu achava que era fracasso meu. Hoje sei que meu corpo enfrenta algo complexo. E isso muda tudo.”
LEIA MAIS