Nas últimas semanas, um termo tem tomado conta da imprensa, redes sociais e até mesmo da própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): canetas emgrecedoras. A expressão quer falar das canetas agonistas de GLP-1, que fazem o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e outros no mercado. O fato é que o termo está completamente equivocado e banaliza o tratamento de que realmente usa o medicamento para fins de saúde e não somente estéticos.
Por isso, o portal “Um Diabético” procurou por entidades voltadas a obesidade, endocrinologia e metabologia para explicar melhor o porque o tempo é errado e o porque é importaante saber.
Mídia e redes sociais espalham termo “caneta emagrecedora”
Nos últimos meses, apresentadores de TV e influenciadores digitais usaram repetidamente a expressão “caneta emagrecedora” para se referir a esses medicamentos. Com isso, muitas pessoas passaram a acreditar que esses remédios servem apenas para emagrecer. Na prática, porém, eles atuam de forma muito mais ampla.
O endocrinologista Alexandre Hohl, que dirige a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) e também integra a SBEM, explicou o problema:
“O uso de termo como caneta emagrecedora é totalmente equivocado. Isso é feito por pessoas que usam esses remédios de maneira inadequada. Os pacientes que têm diabetes ou obesidade não falam essa palavra. Nenhum deles usa o termo ‘eu uso uma caneta emagrecedora’. Eles vão dizer que usam o nome do remédio.”
Além disso, ele criticou o uso do termo durante um telejornal brasileiro:
“Essa semana, um telejornal noturno de grande audiência abre falando sobre isso. Mas deveria o apresentador falar assim: ‘as chamadas canetas emagrecedoras, termo usado erroneamente’. Tomara que possamos fazer uma retificação, porque está errado.”
Medicamentos tratam doenças, não apenas peso
A médica Flávia Coimbra, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), reforçou a crítica. Ela explicou que esses medicamentos tratam condições clínicas graves e não devem ser usados com foco apenas estético.
“Essas medicações, como liraglutida, semaglutida e tirzepatida, são indicadas para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Usar o termo caneta emagrecedora simplifica e gera a ideia de que elas servem só para emagrecer, o que não é verdade.”
Ela ainda lembrou que os medicamentos passam por estudos sérios para outras condições.
“A tirzepatida já tem aprovação para tratar apneia do sono nos Estados Unidos. Também há estudos para uso em doença hepática gordurosa. Por isso, o termo caneta emagrecedora acaba sendo pejorativo.”
Banalização atrapalha pacientes
Ao mesmo tempo, o uso do termo errado gera outros impactos negativos. Muitas pessoas passam a comprar ou usar o medicamento sem diagnóstico, sem prescrição e sem orientação profissional. Isso coloca a saúde em risco.
Entre os principais efeitos colaterais, especialistas citam:
- Náuseas;
- Vômitos;
- Desidratação;
- Perda de massa muscular;
- Hipoglicemia.
Além disso, o uso sem acompanhamento pode mascarar sintomas de outras doenças e atrasar o diagnóstico correto.
Termo errado causa escassez e prejuízo coletivo
Enquanto pessoas usam o medicamento por conta própria, pacientes com diabetes ou obesidade enfrentam dificuldades para conseguir a medicação. Muitas farmácias já registram falta de estoque. Os preços também aumentam, o que dificulta ainda mais o acesso ao tratamento adequado.
Ao mesmo tempo, as plataformas digitais continuam promovendo o uso para emagrecimento rápido. No entanto, não existe fórmula mágica. O tratamento precisa de acompanhamento, alimentação balanceada e atividades físicas regulares. O médico e representante da SBEM e ABESO diz que é errado usar o termo para um medicamento que é estudado até para tratar doenças como o Alzheimer.
“São remédios que tratam doenças como diabetes tipo 2, sobrepeso e obesidade, e futuramente talvez outras doenças, como está se estudando a doença hepática gordurosa metabólica, e talvez até doenças do sistema nervoso central, como Alzheimer. Como vai dizer que uma pessoa usa uma caneta emagrecedora para tratar Alzheimer? Então tem que haver essa correção desde já, porque está errado.” – declara Alexandre Hohl
Informação correta protege vidas
Corrigir o uso do termo “caneta emagrecedora” não é apenas uma questão de linguagem. Essa mudança pode salvar vidas. Quando a informação circula de forma errada, as pessoas tomam decisões baseadas em ilusões e não em ciência. Por isso, médicos e entidades pedem mais responsabilidade nas redes sociais, nos noticiários e nas conversas do dia a dia.
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