O Dia Nacional do Diabetes, celebrado nesta quinta-feira, 26 de junho, tem como objetivo conscientizar a população brasileira sobre a realidade de quem convive com a condição. A data, criada em parceria entre o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), vai além da divulgação de sintomas ou tratamentos: ela chama atenção para o estigma, o preconceito e os sentimentos de culpa que ainda cercam o diabetes tipo 2.
Para entender esse cenário com mais profundidade, o portal “Um Diabético” conversou com duas mulheres diagnosticadas com diabetes. Cada uma vive uma realidade diferente, mas ambas enfrentam julgamentos e pressões que afetam não apenas o corpo, mas também a saúde emocional.
Quando o diagnóstico de diabetes traz culpa: o relato de Carla no Dia Nacional do Diabetes
Carla Rocha, de 49 anos, mora no Rio de Janeiro e trabalha como operadora de telemarketing. Ela descobriu o diabetes tipo 2 aos 45, durante uma internação por pancreatite. Na ocasião, também recebeu os diagnósticos de gordura no fígado e dislipidemia.
“Me sinto culpada porque eu levava uma vida com prioridades invertidas. Eu priorizava trabalho, ganhar dinheiro, e não ligava para uma alimentação real. Vivia de fast food, miojo, pão”, relata Carla.
Com o tratamento, ela precisou rever muitos hábitos. A mudança de comportamento, no entanto, nem sempre vem acompanhada de apoio. Em festas, por exemplo, já enfrentou olhares estranhos ao chegar com uma garrafa de água. Em outras situações, foi questionada por pedir água ao comer um sanduíche em vez de refrigerante. Para ela, falta empatia e compreensão.
“As pessoas erram ao banalizar a diabetes tipo 2 como se fosse um resfriado ou uma frescura. Elas não se tocam que é uma doença real, que tem consequências sérias: cegueira, amputações.”
Carla diz que a terapia e o conhecimento sobre alimentação são ferramentas importantes no seu processo de adaptação. No entanto, reconhece que ainda escorrega em escolhas alimentares e sente o peso do julgamento.
“Viver com diabetes tipo 2 é aprender a recomeçar. É difícil abandonar velhos hábitos sem julgamento algum. Ser criticada ou julgada só me gera mais culpa e medo.”
Julgamentos e mitos cercam o diabetes: a vivência de Rafaela
Já Rafaela Cassemiro, de 25 anos, vive em São Roque (SP) e foi diagnosticada com diabetes tipo 2 aos 22. Mesmo convivendo com a condição há apenas três anos, já enfrentou uma série de desafios, inclusive durante a gestação.
“Na minha gestação, eu não tive totalmente as instruções que toda gestante deveria receber. Tive diabetes gestacional, recebi breves informações e assim fui mantendo. Após o nascimento, o diabetes permaneceu, recebendo o diagnóstico anos depois”, conta Rafaela. Ela acredita que, se tivesse recebido mais orientação, sua rotina hoje seria diferente.
O diagnóstico trouxe impacto emocional. Segundo Rafaela, os julgamentos surgiram rapidamente, inclusive pela aparência.
“Assim que descobri o diagnóstico, eu usei o Libre e não queria sair de casa. As pessoas olhavam sem saber do que se trata e ainda ouvi comentários do tipo ‘mas você é magra’ ou ‘nossa, você é tão nova’.”
Para ela, o estigma ainda é forte. “Acredito que ainda seja muito a questão do mito. Aquela velha história de que só pessoas acima do peso têm diabetes, ou que é por comer muito doce.”
Rafaela deixa um recado importante no Dia Nacional do Diabetes
“O susto do diagnóstico também é uma fase. Desafiadora, claro, mas sabendo se cuidar, com alimentação equilibrada, uso correto dos medicamentos e atividade física, você consegue levar a vida normalmente.”
Ela também chama atenção para os comentários maldosos.
“É uma doença que, até o momento, não tem cura, porém, comentários de julgamento podem nos desanimar e nos adoecer ainda mais. Somos livres como qualquer outro. Podemos comer nosso doce de vez em quando e está tudo bem. Nossa doença não é contagiosa.”
Um dia para lembrar que ninguém tem diabetes porque quer
Tanto Carla quanto Rafaela trazem à tona um ponto comum: ninguém escolhe ter diabetes. O diagnóstico não deve vir acompanhado de culpa, mas principalmente de acolhimento e informação. O Dia Nacional do Diabetes busca reforçar exatamente essa ideia: promover o respeito às diferentes vivências e combater o preconceito.
A data lembra que o cuidado com o diabetes vai muito além dos exames ou da alimentação. Envolve saúde mental, apoio social e o fim de frases que culpam quem vive com a condição. Viver com a condição, como mostram os relatos, é um processo que exige adaptação contínua, mas nunca julgamento.
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