O maior congresso de diabetes do mundo, o ADA Diabetes Congress 2025, que acaba hoje em Chicago, nos Estados Unidos, está sendo marcado por uma mudança clara: o tratamento da condição não pode mais ignorar o peso corporal das pessoas com diabetes tipo 2. Ao longo dos dias do evento, que chega à sua 85ª edição, médicos, pesquisadores e profissionais da saúde discutem avanços científicos, novas tecnologias, desafios globais e soluções inovadoras para enfrentar o que já se tornou uma epidemia silenciosa.
“O destaque mais importante até agora foi a diretriz sobre obesidade em diabetes. Ela ainda não foi publicada, mas já indicou um novo caminho: o diabetes não pode mais ser tratado apenas focando na glicose, independentemente do peso”, afirma o médico endocrinologista Márcio Krakauer, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que participa do congresso e conversou com exclusividade com o “Um Diabético” diretamente dos Estados Unidos.
Segundo Krakauer, os dados globais mostram que até 90% das pessoas com diabetes tipo 2 também vivem com obesidade. Por isso, o novo consenso que está em construção pode provocar um reposicionamento das estratégias terapêuticas. “A obesidade já tem grande destaque na medicina e não seria diferente no diabetes. Isso muda tudo”, reforça.
Prevenção do diabetes tipo 1 entra no radar com força
Outro eixo de destaque no ADA 2025 é a prevenção do diabetes tipo 1, uma área que vem ganhando consistência com avanços em triagens genéticas e imunológicas.
“Várias palestras abordam a detecção precoce de pessoas com risco de desenvolver diabetes tipo 1. Estão surgindo abordagens como reposição de células beta, uso de células encapsuladas e até tratamentos com medicamentos como o teplizumabe, que têm mostrado resultados promissores”, detalha Krakauer.
A ideia, segundo os especialistas, é que o diagnóstico precoce, somado à atuação imunomoduladora, possa adiar ou até impedir o surgimento clínico do diabetes em pessoas suscetíveis.
Rins, coração e cérebro: a tríade dos temas que se consolidam
Os temas clássicos continuam em pauta, com novas evidências e abordagens. O risco cardiovascular segue como um dos maiores pontos de atenção para quem vive com diabetes. Da mesma forma, a doença renal crônica recebe cada vez mais atenção devido ao seu crescimento preocupante em todo o mundo.
Neste ano, porém, um novo campo entrou com mais força na programação científica: Alzheimer e diabetes.
“Vi várias apresentações sobre isso. Estão falando mais sobre a conexão entre o diabetes e o risco de desenvolver doenças neurodegenerativas”, relata Krakauer. A ligação entre glicose, inflamação e cognição começa a ganhar destaque nos congressos internacionais.
Novas terapias e a possibilidade de remissão do diabetes tipo 2
O ADA 2025 também trouxe atualizações importantes sobre medicamentos que estão mudando a história do tratamento do diabetes tipo 2. Um exemplo de destaque é a tirzepatida, uma medicação que combina ação em dois receptores hormonais (GLP-1 e GIP) e que vem provocando impacto real nas metas de tratamento. No Brasil, a tirzepatida é o Mounjaro, que iniciou vendas recentemente.
“Com a dose de 15 mg da tirzepatida, metade das pessoas com diabetes tipo 2 consegue remitir a doença, com hemoglobina glicada abaixo de 5.7%. Isso mostra que estamos vivendo uma nova era no tratamento do diabetes”, afirma o médico da SBD. A perspectiva de remissão, antes considerada difícil, começa a se concretizar em larga escala, especialmente com as novas classes de medicamentos.
Tecnologia em alta: sensores, bombas e educação digital
Como sempre, o ADA também apresenta inovações tecnológicas que transformam o dia a dia de quem vive com diabetes. Os sensores de glicose e as bombas de insulina continuam evoluindo, com foco em maior personalização, automação e integração com aplicativos e algoritmos inteligentes.
Mais do que isso, o congresso reforça o papel da educação digital como ferramenta para melhorar o cuidado.
“Há muitas palestras sobre educação em diabetes, inclusive com metodologias novas, abordagens comportamentais, psicológicas e uso da tecnologia para ensinar médicos e pacientes”, explica Krakauer.
Atenção primária precisa entrar no jogo do diabetes
Um alerta importante também veio logo na abertura do congresso: médicos da atenção primária precisam estar mais preparados para tratar a condição.
“Ficou claro que precisamos melhorar a educação dos general practitioners, que no Brasil são os médicos das UBS. Eles são a linha de frente e, muitas vezes, não têm acesso a atualizações constantes”, observa o endocrinologista.
Esse ponto é crucial para ampliar o acesso e garantir que o tratamento precoce ocorra antes das complicações, sobretudo em países onde a maior parte da população depende do sistema público de saúde.
Inovação brasileira no palco internacional
Entre os momentos do ADA 2025, está o Diabetes Innovation Challenge, que chegou à sua terceira edição no evento norte-americano. Essa iniciativa internacional surgiu a partir de um projeto originalmente criado no Brasil, em 2019, pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) em parceria com o médico Marcio Krakauer.
Neste ano, o desafio reuniu cinco startups, que apresentaram soluções inovadoras para o cuidado e prevenção da condição. Como resultado, uma delas foi premiada: a Key Health, que desenvolveu um exame de laboratório capaz de prever o risco de diabetes muito antes do diagnóstico clínico. O teste utiliza marcadores de metilação do DNA, representando uma abordagem promissora e altamente tecnológica.
Dessa forma, a descoberta abre novas perspectivas para estratégias de prevenção do diabetes, tanto tipo 1 quanto tipo 2, e reforça o papel da inovação científica no enfrentamento global da doença.
Cobertura brasileira quase em tempo real
A participação do Brasil no ADA 2025 inclui cerca de 35 a 50 médicos, segundo estimativa de Krakauer. E para democratizar ainda mais o acesso às informações, a Sociedade Brasileira de Diabetes faz uma cobertura pelas redes sociais, com vídeos curtos, entre 2 e 4 minutos, explicando os principais temas discutidos no evento.
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