Nos últimos anos, medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida — criados originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2 — passaram a ocupar o centro das discussões sobre emagrecimento. A eficácia na perda de peso foi tão expressiva que rapidamente essas substâncias começaram a ser reposicionadas como soluções para a obesidade, recebendo novas aprovações regulatórias e sendo amplamente divulgadas por clínicas, redes sociais e veículos de mídia.
Essa mudança de narrativa, no entanto, levanta uma questão importante: por que o diabetes tipo 2, uma condição crônica que ainda afeta milhões de brasileiros, parece ter perdido protagonismo nas discussões sobre saúde — mesmo sendo a origem desses avanços terapêuticos?
Obesidade e diabetes tipo 2 são doenças crônicas, complexas e frequentemente interligadas. Ambas exigem tratamento contínuo e cuidado multidisciplinar. Durante décadas, a obesidade foi tratada com estigma, vista apenas como resultado de escolhas individuais. A recente valorização do tratamento medicamentoso representa um avanço importante. Hoje, finalmente, ela é reconhecida como uma condição que merece atenção médica, pesquisa e investimento. Isso é necessário — e positivo.
Mas há um descompasso visível. Muitos pacientes com diabetes tipo 2 seguem com acesso restrito a tratamentos modernos, mesmo quando esses medicamentos foram criados, testados e aprovados inicialmente para essa condição. No SUS, ainda é comum o uso de medicações de gerações anteriores, com menor eficácia e mais efeitos colaterais. A própria incorporação de insulinas análogas de ação prolongada levou anos para acontecer. Enquanto isso, o debate sobre a obesidade cresce com força, ocupando espaço nos meios de comunicação, nas redes sociais e em campanhas institucionais.
Por que a obesidade chama mais atenção?
Essa mudança de foco não aconteceu por acaso. A obesidade passou a ocupar um espaço cada vez maior no debate público por uma combinação de fatores sociais, econômicos e midiáticos — e isso não deve ser interpretado como um problema, mas como resultado de um movimento legítimo que buscou corrigir injustiças históricas.
Durante muito tempo, pessoas com obesidade foram alvo de preconceito, gordofobia e desinformação. O avanço na compreensão da obesidade como uma doença crônica foi fundamental para romper com estigmas e abrir caminhos para o cuidado adequado. Os novos medicamentos, aliados a uma nova abordagem comunicacional, trouxeram esperança e visibilidade.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que:
- A obesidade é mais visível, com forte apelo estético e emocional;
- O emagrecimento é mais facilmente comercializável nas redes sociais e pela indústria;
- O público-alvo é mais amplo, incluindo pessoas sem diagnóstico formal;
- E os próprios medicamentos viraram símbolos de transformação, com forte presença na mídia e na cultura pop.
Essa visibilidade abriu portas, mas também desviou parte da atenção que antes era destinada exclusivamente ao diabetes tipo 2. Campanhas, eventos e até entidades de defesa das pessoas com diabetes passaram a ampliar seu escopo, incluindo outras doenças crônicas. Embora esse movimento seja bem-intencionado e importante, ele também contribui — ainda que indiretamente — para a redução do espaço exclusivo para a luta pelo acesso ao tratamento do diabetes.
É importante dizer: esses espaços ainda existem. Mas o protagonismo do diabetes tipo 2 vem sendo gradualmente dividido — e, em alguns casos, substituído — por outras pautas. O risco é que isso aconteça de forma silenciosa, e que o diabetes, mesmo com seus altos índices de mortalidade, impacto econômico e social, fique em segundo plano na formulação de políticas públicas e estratégias de comunicação.
O avanço é bem-vindo, mas o equilíbrio é necessário
Não se trata de oposição. O avanço no tratamento da obesidade deve ser celebrado e defendido. É uma vitória para a saúde pública. Mas não se pode ignorar que a base de muitos desses avanços nasceu do investimento no tratamento do diabetes tipo 2 — e que essa população continua enfrentando grandes barreiras de acesso, diagnóstico e cuidado, especialmente no sistema público de saúde.
A urgência agora é equilibrar a balança: garantir que o foco no emagrecimento não apague a necessidade de avançar também no cuidado com quem convive com diabetes. Ambas as doenças precisam de atenção, e o espaço para essa conversa precisa crescer — não se deslocar.